quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O obvio tio maçom de Joselito

O circunspecto Tio Jules era maçom.
Homem reservado, de aparência frágil e figura franzina, tinha um rosto anguloso e macilento, ao qual um bigode fininho de pontas esticadas fazendo um arco convexo, dava um ar de republicano e racionalista respeito. Vestia sempre fatos escuros de bom corte e ostentava a faixa da sua “loja”, com inegável orgulho, em todos os jantares de família. E fungava sempre que dizia a palavra caroço.
Não gostava de mulheres, algo que confundia Joselito. Era até bastante critico em relação ao sobrinho, repreendendo-o constantemente pelas suas demoradas saídas nocturnas.
A maior parte dos tempos livres, o pedreiro-livre, usava-os para fazer macramé, sendo o maior especialista em filès, dentro da sua irmandade, e tendo conseguido uma prática bastante aceitável no fio traçado.
Mas tivesse o Tio Jules a perspicácia suficiente, e o bom senso que a sua respeitabilidade, naturalmente, acarretava; tivesse o Tio Jules deixado as coisas ficarem apenas pelas admoestações palavrosas, não passando a actos impositivos, e o seu stock de ceroulas existente no prédio 52 da Rua D. Rubio em Caracas, onde vivia a abastada família, não teria aparecido á venda numa banca de ciganos no mercado mensal, naquele sábado funesto.
Tivesse o Tio Jules encarado com bonomia e ponderável condescendência, as necessidades sexuais do sobrinho e não coagisse os membros femininos da família, incluindo a própria esposa e serviçais, a usarem cinto de castidade durante aquele mês de verão em que Joselito resolvera ir lá passar férias, e todos os acontecimentos posteriores, que vieram obumbrar o relacionamento familiar, muito duvidosamente teriam ocorrido. Inclusive aquele triste episódio, que ainda hoje é bastante comentado por toda a cidade, sendo alvo das mais cruéis anedotas: o dia triste, que amanheceu com a chaminé altaneira engalanada com todo o tipo de tachos e panelas, umas grandes outras pequenas; o cata-vento ornado com o tlintlim musical dos talheres de prata, e, lá bem no alto, o pico do pára-raios arrematado com a majestosa cabeça de um veado empalhado que, sorridente, cumprimentava os transeuntes que passavam cá bem em baixo e que por entre sonoras gargalhadas tentavam adivinhar como fora lá parar o objecto, havendo inclusive, e não eram poucos, os que rebolavam pelo chão não aguentando as contracções estomacais de tanto rir.
Poderia o patético e austero homenzinho ter evitado todos estes embaraçosos acontecimentos? Obvio que sim, se tivesse sido mais condescendente com Joselito, se tivesse feito esforços para compreender, talvez até aceitar as suas imperiosas necessidades sexuais, não resolvendo de forma tão autoritária entrar em confronto directo com o seu adolescente sobrinho, já que sendo membro respeitado de uma sociedade secreta e esotérica que professa os princípios da igualdade e fraternidade, tinha o dever de respeitar os membros próximos da sua família, seguindo assim a conduta que o seu prestígio impõe. Mas como as coisas da vida nunca são tão simples e directas, é obvio que não, pois como membro dessa mesma sociedade, antiga e de origens tão remotas, trazia arreigada uma ideia protectora da moral e bons costumes, que irracionalmente defendia com todos os meios ao seu dispor.
Agora, e finalmente, poderia Joselito ter sido mais brando nas suas retaliações contra as constantes tomadas de força do seu tio? É obvio que sim: não havia qualquer necessidade de se empoleirar em cima das suas três primas para chegar ao pára-raios, nem era imperioso vender as ceroulas do tio aos ciganos, isso é certo. Mas como realmente a vida não é uma coisa tão simples e directa, é obvio que não: a sua natureza e forma de encarar o sexo impeliu-o a tomar atitudes mais graves em defesa do seu modus vivendi, e o jovem mexicano não compreendia como o seu tio poderia ser tão crítico em relação a um acto, que para além de ser um excelente lenitivo para a alma, era a melhor forma de povoar o planeta, salvação da humanidade. E também porque soubera, por troca de segredos com uma criadita, que o tio Jules não só era maçom como tinha outra particularidade: era circuncidado.
Que ilação retirar então de tão deplorável confronto?
Por ser circuncidado não é obvio que o Tio Jules fosse judeu, ou muçulmano, logo é manifesto que Joselito nunca poderá ser apontado de iconoclasta. Para ele um maçom é apenas um tipo feio.
É obvio que o tio dormiu com a criada, não só com a que o denunciou, como com toda as outras: é um manifesto defensor da moral e dos bons costumes.
É obvio que Joselito dormiu com a criada, não só com a delatora como com todas as outras. E com as três primas. E com a tia. E com a mulher do homem do talho. Que vinha entregar a carne ao domicilio todas as terças feiras.
E como abriu Joselito o cinto de castidade?
É obvio que não conhecem o ferreiro Espetodepau, amigo de infância de Joselito.*
*ver o Senhor e a Senhora Jones