quinta-feira, 2 de outubro de 2008

TRAGEDIA EM UM ACTO

(O cenário mostra um anfiteatro grego. Velho e gasto, colunas jónicas ou outras quaisquer, semidestruidas, umas em pé outras não, algumas nem uma coisa nem outra, muitas delas nem por isso. Em palco um coro grego, vestidos á grego antigo, penteados á grego antigo, com umas sandálias como usavam os gregos antigos)

CORO- Iremos hoje contar a trágica história triste, cheia de redundâncias, de Joselito mexicano de raiz. Escutai, ó povo de Atenas, a vida plena deste herói, não muito inteligente é verdade, e que só sabe pronunciar uma palavra com clareza… (elevam mais a voz e cantam á capella) sexo! Sexo! Sexo! (cantam todos afinadinhos, menos um, o mais baixo e efeminado, para quem todos olham com desaprovação) Uma palavra que começou a pronunciar ainda no berço com cerca de quinze dias de idade: (cantam novamente á capella) sexo! Sexo! Sexo! (o mais baixo continua depois dos outros…)

MAIS BAIXO - … sexo! (e leva um calduço)

CORO – Estúpido, analfabeto e míope, Joselito…

(Joselito entra)

JOSELITO – Cambada de gregos maricas, que palhaçada é esta?

CORO (em tom acusador) – Tens que nos respeitar, Joselito, pois nós somos o coro!

JOSELITO- São o quê? Com essas túnicas e a calçar sandálias? O que vocês são é um amontoado de gays gregos, cheios de tradições homossexuais. E quem exige respeito sou eu, não os conheço de lado nenhum e já me chamaram todo o tipo de nomes possíveis.

CORO- Nós apenas recitamos o que o autor escreveu na peça, se está mal escrita não temos culpa! Culpa o autor.

JOSELITO – E quem escreveu esta palermice?

CORO – Não sabemos. Não temos a mínima ideia. (olham uns para os outros e todos negam)

JOSELITO – E porque têm que falar todos ao mesmo tempo? Isto é uma verdadeira salganhada, assim ninguém se entende…

CORO – … nós somos um coro grego. Temos que falar desta forma para acentuar as acções que irão decorrer durante a peça…

JOSELITO – …mas se falasse um de cada vez percebíamos melhor tudo o que vocês dizem. Até porque estão bastante desafinados…

CORO – (embaraçados) … tivemos pouco tempo para ensaiar… e depois não temos vontade própria…

MAIS BAIXO - … eu tenho… (e leva um calduço)

CORO – Somos produto da imaginação do autor…

JOSELITO- … ou da falta dela! Realmente essas túnicas, cor-de-rosa, e essas sandálias…

CORO - … não precisas de estar com dichotes! Aliás, tu também és um personagem. Estúpido, analfabeto, míope, e que só pensa em (cantam á capella) … sexo! Sexo! Sexo!

JOSELITO – Eu existo na realidade! Que só penso em sexo é verdade, estúpido, vai que não vai, analfabeto e míope concedo, agora … eupóclamo!?

CORO – ah, é verdade! E é eupóclamo!

JOSELITO – Vocês irritam!

CORO – … e manco! E ouve mal! E cheira mal da boca… eis o que não deveria ser, um mero produto da imaginação! (apontam para Joselito)

JOSELITO – Eu não sou um produto da imaginação, estão a ouvir?

CORO – És sim. No teatro tudo é imaginação. O teatro é ficção, e é o espelho da vida. Então a vida é ficção. Logo tu és ficção, nós somos ficção e essa gente (apontam para o publico), que não existe na realidade, embora eles pensem que sim, são meros produtos da imaginação de alguém que anda a brincar com tudo isto. E isto é o quê? Isto é teatro ou não?

(alguém do publico começa finalmente a atirar com tomates)

ESPECTADOR- O que isto é, é estúpido, a estupidez mais palermóide que eu já vi! Nem que viva cem anos irei conseguir ver e ouvir uma estupidez tão grande, e exijo que me devolvam o dinheiro. (sai a fazer manguitos)

JOSELITO (que bateu palmas ao espectador) – Ó meninos do coro, vocês querem que lhes prove, de uma forma inequívoca, que eu existo mesmo e vocês também, querem? Sem grandes filosofias eu mostro que nem eu sou, nem vós sois produto da imaginação de quem quer que seja…

CORO – Se fores capaz…!

(neste instante Joselito puxa da sua arma de defesa pessoal, que é o seu elefantino órgão de copulação, e dirige-se para o coro, cujo elementos, apercebendo-se das verdadeiras intenções do mexicano, fogem em todas as direcções; uns para o meio do publico, que os enxota e lhes dá porrada, outros por todas as saídas de cena, enrolando-se nas bambolinas e estatelando-se com toda a força em cima do palco, numa enorme confusão. Menos um: o mais baixo, fingindo que foge, a dar ás pernas como quem corre, mas sempre no mesmo sitio.)

MAIS BAIXO – (em voz de falsete) Ai que ele me apanha! Ai que ele me agarra!

JOSELITO – (pondo-lhe uma mão em cima e preparando-se para lhe mostrar que é um personagem real e não um mero produto da imaginação) Como é que te chamas?

MAIS BAIXO – José Castelo Branco.

JOSELITO – Irra!! Vai-te embora que eu contigo não quero nada!

O SEXO E AS PANQUECAS

Este é o produto de uma conversa, num belo dia de Verão, á sombra de uma tamareira, em pleno deserto do Saara.

É uma reflexão conjunta entre Joselito mexicano de raiz e a Marqueza de Vintamiglia, descendente das mais nobres famílias italianas, uma figura poderosa: alta e farta de carnes, com mais pilosidade facial que o Capitão Haddock e com um par de seios monumentais, imagens pictográficas dos Himalaias. Devoradora feroz de panquecas, este seu hábito só tinha marco de comparação com a fome avassaladora de Joselito por sexo.

Eis a transcrição de um momento histórico, onde se falou de tudo: plantio de beterraba, formas para cozinhar alfarroba, técnicas ajustadas de pentear ananases, cuspir caroços, e o poder eólico das flatulências. E cultura, até se falou de cultura! Estava realmente um calor do caraças!

Marqueza de Vintamiglia – Amigo, gostas de panquecas?

Joselito – Eu é mais gajas. Mas a semelhança entre uma panqueca e um traseiro feminino não me incomoda absolutamente nada. Para alem da analogia fonética…

M.V. – Também já fui para a cama com mulheres. O lesbianismo também não me incomoda absolutamente nada…

J. – Mas a mim incomoda, ora essa!

M.V. - … nos meus tempos de juventude – o Joselito estará recordado -, quando dava aquelas festas monumentais, que não bastas vezes acabavam em colossais orgias e em avassaladores fogos de artifício, acordei na cama com cinco jovens italianas, duas eslovacas e quatro capitães da guarda cossaca. Mas do que eu gosto mesmo é de talos de couve!

J. – Eu não gosto de couve. Couve roxa ainda suporto, faz-me recordar a intimidade feminina, o desabrochar…

M.V. - … não percebo a analogia, é um pouco ordinário, não?

J. – Não, não, não, de todo! Entenda o meu raciocínio: antes de ser roxa, a couve começa por ganhar umas cores rosadas, que ao longo das semanas de desenvolvimento, vai ganhando essa cor mais escura com que acaba por ir para a mesa. Com as mulheres é exactamente a mesma coisa.

M.V. - Continuo sem perceber. Acho um pouco misógino e sexista.

J. – Pelo contrário, bastante realista, e cientifico. Mas a Marqueza estava falando de talos de couve…

M.V.- Sim, gosto de talos de couve. Há-os de todos os feitios e tamanhos. E também a semelhança entre um talo de couve e um homem é espantosa: ambos têm pouca utilidade…

J. - … o homem mexe-se!

M.V. – Tambem um talo de couve quando lhe dá o vento.

J. – Já comeu panquecas com sabor a talo de couve?

M.V. – Claro. Já comi panquecas feitas de tudo o que é possível. Até de chinês careca! Mas prefiro as de alforreca de Madagáscar.

J. Eu gosto muito de asiáticas, e de europeias. As africanas são muito boas e as sul-americanas são especiais, assim como as…

M.V. - … estás a falar de panquecas?

J. – Acha Marqueza?

M.V. – Então vamos mudar de assunto.

J.- Boa, vamos falar de sexo!

M.V. – Eu como mulher preferia falar de amor.

J. – E não é a mesma coisa?

M.V. – Há diferenças entre uma coisa e outra.

J. – É possível, mas eu ainda não descobri quais.

M.V. – O amor faz-me lembrar uma panqueca italiana. A sensualidade latente nas panquecas italianas só é comparável ao nascimento de um filho.

J. – Também devo ter um filho em Itália! Não tenho bem a certeza, mas na Grécia e na Malásia é mais que certo!

M.V. – Bem, e se falássemos de arte? O Joselito quer ouvir o meu poema sobre panquecas?

J. – Claro, é um imenso prazer, Marquesa!

M.V. – Aqui vai:

Acordei moída e esfomeada,

E até com uma enxaqueca:

Quando dei por mim estava estarifada

Na cozinha a comer uma panqueca!

J. – Bravo Marqueza! Lindíssima! A Senhora sempre foi uma poetisa extraordinária! Os seus saraus culturais estão na história, marcados para sempre na memória de todos os que neles tiveram o privilégio de participar.

M.V. – Quer ouvir outra?

J. – Já que insiste.

M.V. - O meu amor estava com frio

E eu não sabia das cuecas,

Sentei-me num banco e sem dar um pio

Fartei-me de comer panquecas!

J.- … mais não por favor, excelentíssima Marqueza, até estou com lágrimas nos olhos de tão comovido…

M.V. – Estava no mar alto a nadar,

Quando vi uma alforreca,

Deu-me uma fome e sem parar

Comi-a como se fosse uma panqueca.

J. – Tenho que me ir embora, Marqueza, já estou a ficar atrasado…

M.V. - … Sei que não sou bonita

Mas também não sou nenhuma marreca,

Agora o que eu gostava mais na vida

Era de ser mesmo uma panqueca.

J. – Até amanhã Marqueza! Tchau!

M.V. – Ainda tenho mais umas quantas Joselito! Oh, e não é que está mesmo cheio de pressa? Até vai a correr!

ROSA SELVAGEM, JOSELITO E MARIA PAPOILA- J'AIME LES TROIS

“Ou se faz sexo ou se pensa…” Divagava Maria Papoila, com as pernas enroscadas nas de Joselito. Do outro lado da cama, Rosa Selvagem ressonava, extasiada, depois da turbulenta noite de amor proporcionada às duas, pelo bem fornecido mexicano. Este ressonava ainda mais alto.

Impedida de se concentrar, nas suas divagações, pelo barulho sonoro feito pelo casal, levantou-se e foi até á janela, que abriu de par em par, deixando entrar o sol matinal e sendo, dessa forma, atingida pelos odores putrefactos da imensa e desorganizada metrópole que é Banguecoque*.

“Fazer sexo é inteligente. Quando se faz sexo não se pensa, ou então o acto não presta. Sendo assim, pensar não é inteligente, mas comer tremoços… bem, os tremoços vão melhor com as cervejas do que a praticar sexo! Sinto-me um pouco baralhada…”. Chegando a essa conclusão, Maria Papoila debruçou-se na janela, para observar a confusão animada das ruas, e sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Este gajo não descansa!”.

Maria Papoila fazia sexo dez vezes por dia, desde os seis anos de idade. Esta sua precocidade era bastante admirada, e invejada, pelas pessoas da pequena vilazita da Galiza, onde cresceu e viveu até aos catorze, altura em que a sua família teve de se mudar para a grande cidade, em busca de melhores condições.

Sua mãe compunha boleros, e seu pai trabalhava numa fábrica de confecção de esfregões para lavar restaurantes que apenas abriam ao fim de semana. Como o negócio da restauração não era dos mais desenvolvidos, José Papoila tinha sido despedido, vendo-se na contingência de ir trabalhar com os filhos, irmãos mais velhos de Maria Papoila, pescadores de ostras. Mas, por qualquer obscura razão da natureza, estas encontravam-se em abstinência sexual e não se reproduziam, sendo toda a família dos Papoilas obrigada a partir para a América Latina, deixando o coração destroçado á imensa maioria masculina da pequena vilazita galega.

Vendo qualquer coisa que lhe chamou a atenção, Maria debruçou-se, ainda mais, na janela e sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Este gajo não descansa mesmo!”.

Do outro lado da rua, no prédio em frente ao seu, um pombo-correio, observava Maria Papoila, piscando os seus olhitos amarelos. Abanando a cabeça de um lado para o outro e dando pulinhos, ora numa pata ora noutra, encontrava-se tão absorto que, escorregando do varão da varanda em que se encontrava pousado, estatelou-se com enorme alarido sobre um riquexó, puxado por um pequeno e afogueado autóctone, que passeava duas americanas texanas, sessentonas, matrafonas e bolorentas.

“Seria o Espírito Santo?” - questionou-se Maria. E num grito pleno de esperança, apressou-se a ir ter com o pombo-correio, que entretanto, num imenso chafurdar de penas, tentava evitar as porradas histéricas que as duas americanas lhe tentavam aplicar.

Agachando-se para apanhar as cuequinhas, sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Será que este gajo nunca descansa, pá?”.

Entretanto a pequena ave conseguira escapulir-se para debaixo do riquexó, esperando, angustiosamente, que alguém o fosse salvar, ou que as duas bélicas texanas se cansassem de o tentar atingir com as vassouras, que com poderosos movimentos iam ondulando, perigosamente, pelo ar.

Maria Papoila, apercebendo-se de que a vida do pombo-correio poderia estar em risco, ou então de sofrer sérias mazelas físicas, começou a descer as escadas com toda a pressa que podia, mas perdendo um sapato, agachou-se para o apanhar e sentiu o corpo quente de Joselito encostar-se no seu. E sentiu que ele a penetrava por trás: “ Dasse… é que este gajo não descansa nunca!”.

Na rua, perante um ajuntamento cada vez maior de moradores atraídos pelos gritos do condutor, e o piar aflito do pombo, as duas americanas aplicavam pauladas cada vez mais fortes no riquexó, já semi-destruido. Mas ninguém pensando em acudir á pobre ave, que, com sérias duvidas em relação á bondade humana, começava justamente a rever a vida em flashback. A sua única hipótese, Maria Papoila, nunca iria chegar a tempo, pois quando se inclinara para desviar o tapete em frente da porta sentira o corpo quente de joselito encostado no seu. E sentiu que ele a penetrava por trás. “Nunca, mas nunca mais, ponho os pés nesta casa, eu não me chame Maria Papoila!”

Então, estando a vida da ave por um fio, o pobre columbídeo sem qualquer hipótese e um enorme aglomerado de asiáticos de mãos no ar, as senhoras dando gritinhos de aflição, os pais tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o sacrifício eminente, eis que as duas americanas texanas, sessentonas, matrafonas e bolorentas agacham-se, num último esforço, para conseguir atingir o pombo-correio e, uma, depois a outra, sentiram o corpo quente de Joselito encostado no seu. E, uma, depois a outra sentiram que ele as penetrava por trás.

“God, como é bom viver em Banguecoque!”.

* notar a semelhança fonética.

UM ESTUPIDO É UM ESTUPIDO

Um estúpido tem sempre cara de estúpido, quer ele queira quer não. É difícil dizer porquê, mas com o passar dos anos um estúpido acaba sempre por se parecer o mais possível com um estúpido mais estúpido que um estúpido. Seja em Marrocos ou na Austrália, cara de estúpido: premio Nobel ou borra-botas, cara de estúpido. E o mais curioso em toda esta estupidez, é que têm tendência para ser, ou pretendem ser, presidentes de qualquer coisa: é um facto indesmentível e mais que provado que o objectivo maior de um estúpido, é ter poder, mandar em qualquer coisa. Normalmente são os gajos com pila pequena. Quanto mais pequeno e mais falacioso o falo, maior o cargo e consequente poder que detêm. Poderemos deduzir então: homem poderoso, ou com pretensões a sê-lo = pila curta, e fininha.

Ora, mas esse poder, que o cargo logicamente infere, poderia amenizar os estragos que a estupidez patética de um estúpido pretensamente poderoso provoca na vida presente e futura dos outros, mas não, nada de mais errado: ou por paquidérmica prepotência, ou por casualidade defeituosa da natureza, o poder que detêm potencia os danos que a idiotice, a palermice, a parvoeira dos seus actos provoca nos indivíduos que estão sob o seu jugo.

E o mais curioso de tudo, é que são donos de uma perseverança do ser néscio, que ao invés de ser trágico até se torna, deveras, divertido.

Miguel Leopoldo Milciades, presidente da república daquele pequeno país da América latina, até na lua sem capacete lunar, seria sempre um exemplar perfeito do que acabamos de falar: alto e louro, físico de quem resolveu não fazer grandes esforços, carecido de quaisquer pilosidades, olhos castanhos e pequenos, lábios gretados e orelhas em forma de couve-flor, já tinha ar de estúpido, mas quando começou a falar naquela sua voz de serra eléctrica a cortar um nó de pinho, Joselito ficou com todas as dúvidas desfeitas: idiota.

“Pois, sabe, meu caro Joselito, sendo certo que tenho quatro palmos de costas e peso noventa quilos, não posso arcar com todas as responsabilidades! Não tenho culpa de o senhor julgar que a fanfarra oficial da guarda pessoal do Presidente toca demasiado alto e desafinada, opinião contrária á minha. Os metais talvez, mas os tambores são uma delicia… aquele pum-pum-pum…! Que maravilha! Demonstrativo, elucidativo da forma como nós neste pequeno país, possuidor de parcos recursos, oprimido pelas potências vizinhas, imperialistas e colonialistas, tratamos a nossa cultura! Pum-pum-pum! Fantástico! E os pratos…? Traz-traz-traz…! Cultura, é assim que se deve cuidar da cultura: pum-pum-pum, traz-traz-traz!!” – e levantando-se, quase num salto, Milciades começou a marchar, exemplificando de uma forma bastante exagerada, toda a parvoeira barulhenta que a sua fanfarra, um projecto pessoal seu, conseguia, sem aparente esforço dos seus elementos, tocar. “Mentecapto.” – Confirmou Joselito.

De repente, o presidente parou com a sua histriónica e a macacada demonstração de uma fanfarra, apontou o dedo a Joselito e, numa crescente irritação, a serra a patinar no nó de pinho, o organismo deveras próximo de uma síncope, disparou:

- “Inveja! É a inveja e a dor de cotovelo que move essa cambada de ignorantes, contra a minha pessoa! Contra a nossa obra! Grandiosa obra em prol do povo! Tudo pelo povo e para o povo! Viva o povo! Viva o povo!” – gritou, espumando gafanhotos, nuns agudos que se ouviam do outro lado do planeta, e que normalmente atrairiam alguém pensando tratar-se de uma tragédia ou de um atentado presidencial, não fosse os seguranças e demais chefes de gabinete, num descuidado encolher de ombros, estarem habituados às disparatadas gritarias furibundas de tão excelso personagem. E recomeçou a marcha pela enorme sala, que se poderia atravessar de jipe, pulando, braço bem esticado, punho levantado, como se estivesse numa manifestação pós-revolução, dando pontapés, nas cadeiras, mesas e cinzeiros que se cruzavam no seu caminho – as que não se cruzavam, Milciades fazia questão em desviar-se da sua rota e enfiar-lhes tremendos pontapés numa fúria destruidora já com hábitos enraizados. E encostando a cara na de Joselito gritou:

-“ E tu, meu mexicano de merda, não foi para conspirares contra nós que te contratámos!” –

-“Cro-magnon!” pensou Joselito antes de falar calmamente –“Sabe Excelentíssimo Presidente, por mim está tudo bem. O barulho não me incomoda, absolutamente nada. O problema é que a maior parte das senhoras da nossa capital – digo nossa, pois já considero este país como meu –, assim como a sua digníssima esposa, queixam-se de não terem forma de se concentrar, quando se encontram em pleno acto de fazer amor.”

Milciades começou por coçar a testa, baixou o tom de voz, dirigiu-se á secretária e sentou-se.

-“Bem, se é pela minha Lucrécia Lorelei, bem vistas as coisas, podemos fazer umas pequenas alterações na fanfarra, substituir os tambores por uns berimbaus, os metais por uns pífaros, e os pratos… o que fazemos dos pratos, Joselito?”

- “Estalar de dedos?”

-“Seja!” – animou-se Miguel Leopoldo Milciades - que embora tivesse o mesmo nome do general grego vencedor dos persas, era bem menos perspicaz -, imaginando um aglomerado de homens em calções e de meias até aos joelhos, a tocar berimbaus, pífaros e a estalar os dedos.

Joselito despediu-se e saiu, despreocupado – “ Este é que é um verdadeiro inhenho!” – suspirou.