A BEATIFICAÇÃO DE JOSELITO
Joselito, mexicano de raiz , tinha alcançado outro estádio.
Mudara completamente a sua personalidade. Tinha apenas uma noção muito vaga do que fora anteriormente: era sexualmente activo, e de uma maneira bastante exagerada.
Mas nesse instante encontrava-se terrivelmente zangado.
Quando falecera, se extinguira, quando terminara a sua existência, expirara, cessara de viver, desaguara, gafara, batera as botas e chegara ao céu, quando São Pedro lhe escancarou as portas, a sua revolta atingira proporções de inusitada violência. Fracturara a cana do nariz ao Santo e partira as pernas aos seguranças para além de Ter atirado á cabeça de Nosso Senhor com um exemplar do Trópico de Capricórnio de Henry Miller.
Como supremo castigo tinha sido obrigado a dormir com Lili Caneças.
As primeiras semanas ainda aguentara mas, passado um mês, quando a senhora lhe pediu, com muita educação, se lhe poderia obsequiar um “felattio”, Joselito não aguentara mais e tinha regressado á terra.
Roubara as asas de um anjo, que se encontravam penduradas num cabide, mas escolheu umas já velhas e gastas. Então, quando tomou o caminho de regresso, as asas derreteram e não fora a Providência Divina , Joselito Ter-se-ia estatelado com toda a violência num passeio da 5th Avenue.
Muito provavelmente sofreria algumas mazelas.
Quando acordou, exactamente no meio do Central Park, sentiu-se estranho. Em pleno mês de Dezembro, com o Natal á porta, a dormir completamente nu num banco de jardim, era suposto não acordar.
A sua estranheza aumentou na medida em que percorria as ruas, com as suas partes pudibundas a dar a dar, e as pessoas nem sequer reparavam, os olhares de admiração que costumava suscitar, eram agora completamente inexistentes. Recordou, com estranho desagrado, certa vez que estava deitado com uma morena num catre, num bairro da cidade de Manila; uma colega da sua companheira entrara com um parceiro, para se dirigir ao quarto ao lado, e reparando nas suas protuberâncias dissera, com os olhos abertos de admiração: “Deus tos conserve, jovem!”.
Pensando nisto, Joselito, habitualmente pouco cerebral, ia andando a largas passadas, quando começou a atravessar a avenida fora da passadeira. De repente tomando consciência do perigo, olhou para o lado e viu o taxi amarelo vindo na sua direcção.
Apenas sentiu uma ligeira impressão quando o carro o atravessou sem que o condutor esboçasse o mínimo sinal. Percebeu então o que lhe estava acontecendo.
Joselito estava morto.
Após o choque inicial, de perceber quanto a sua vida mudara, o seu instinto de sobrevivência veio ao de cima e começou a pensar nas vantagens que poderia tirar do facto de não Ter um invólucro que o incomodasse. E poder passar despercebido perante os seres humanos poderia não ser realmente um “handicap”.
O seu primeiro pensamento, como é natural vindo de pessoa tão activa sexualmente, foi o de como tirar prazer de um acto que para ele tinha sido como respirar, pois Joselito detinha todos os recordes conhecidos de contenção. Mas teria de arranjar roupas, para qualquer eventualidade – “Ninguém sabe o dia de amanhã!” – pensou, tristemente.
Foi então que sentiu uma horrível dor de dentes. Estoicamente dirigiu-se a um consultório de estomatologia onde a secretaria era uma estonteante estoniana, embora um pouco estólida. E para alem disso, como era estrábica, talvez pudesse ver a sua figura.
Foi quando tomou conta de toda a ridícula situação que estava vivendo . Se lhe podiam doer os dentes e mais estranho ainda, se tinha sexo, e ele via-o, sentia-o, então não era um anjo. Ou então, toda esta situação porque estava passando, vinha pôr em causa tudo o que lhe ensinara a catequista. Estaria tudo mal? Ou, muito possivelmente, o sexo dos anjos era aquele que permite a cópula com as fêmeas, e não o contrário!
Sendo assim, talvez Deus fosse negro, ou mongol, possivelmente até mongolóide, ou mesmo judeu! Era bem possível que existisse uma forma de sair daquela situação absolutamente absconsa que o estava absorvendo, nem que tivesse de ingerir absinto abstergente.
Pensou, absorto.
E depois de pensar, o que Joselito fazia com alguma dificuldade, riu.
E riu, riu, riu tanto, que o estômago lhe cresceu quinze centímetros.
“É do colesterol!” – disse para consigo. E sentou-se na cadeira de um engraxador.
Chegou uma velhinha que se sentou ao seu colo, sem dar por isso. Aquela singela velhinha lembrava-lhe alguém! Depois de muito pensar, o que levou algum tempo, lembrou-se de tão grata figura. Era a sua avó. Que lhe tinha inspirado, quando ele era muito miúdo, os melhores sonhos lascivos que uma criança a despontar para os segredos da vida pode Ter.
Lembrou-se daquelas pernas gordas, com varizes, que ele admirava sentindo uma crescente crepitação criacionista. Foi então que fez o seu primeiro manual criptográfico.
Tinha seis anos.
O segundo fê-lo aos quatorze, quando uma matrona gorda, sua vizinha, se enfiou debaixo dos seus lençóis – depois dos pais terem saído para o mercado – e lhe ensinou qual era a diferença das pessoas estarem divididas entre homens e mulheres.
Depois disso nunca mais comeu lacticínios.
Mas comia verduras, muitas verduras.
Joselito comia tanta alface, que os seus pais, viram-se na necessidade de pintar as paredes do seu quarto de verde.
Foi sempre a sua cor favorita. Gostava tanto de verde, que a sua primeira detenção ocorreu quando agrediu um jardineiro municipal por andar a podar as árvores. O que não lhe serviu de emenda, pois anos mais tarde, foi encarcerado novamente sendo apanhado em flagrante a partir os vidros das janelas do Partido Comunista, como retaliação.
Quando passava por uma miúda vestida de verde, não se continha e exclamava : “Se isto é assim em verde imagina em maduro!”. Partiram-lhe o nariz cinco vezes, pois nem sempre escolhia a altura devida para o dizer.
Foi quando escreveu o terceiro manual criptográfico.
Pensando isto, com uma natural dificuldade, ia andando a grandes passadas, quando sentiu calor numa nádega. Voltou-se e deparou com uma criancinha a olhar para ele, os olhos tão abertos de um divertido espanto que Joselito, quase caía de assustado.
“Tu não tens frio?”
“Podes ver-me?”
“Claro. E o que fazes aí com a pilinha do elefante do Jardim Zoológico?”
Joselito, que detestava crianças, não conseguiu conter algumas lágrimas de arrependimento.
Pegou no miúdo, levantou-o no ar e deu-lhe dois beijos nas bochechas rosadas, uma cor que ele não gostava. Perante o olhar admirado das pessoas que passavam na rua e viam o pequeno elevando-se sem razão aparente., e gritavam, paralisadas de terror: “Chamem O Exorcista! Chamem O Exorcista!”.
Enquanto Joselito seguia o seu sinuoso caminho terrestre, nos céus preparava-se a Iª Cimeira Celeste.
Por obra e graça do anjo Belzebu a Celeste não apareceu.
São Pedro, o presidente da assembleia, e perante o desaparecimento da secretária, com alguma mágoa e rancor, ponderou a hipótese de Joselito ser o culpado do seu desaparecimento. E não fora a entrada atempada de Lucas – São Lucas, por ti América –, a interceder a seu favor, o mexicano passaria quarenta anos em prisão domiciliária na mesma cela de um violador de abades.
Tão extraordinário momento nos Reinos dos Céus passava por um exclusivo, cuja cadeia televisiva que comprou os direitos de transmissão, para todo o planeta, viria a registar o maior share nas cadeias de comunicação.
A maior dificuldade, para os realizadores do talk-show, foi sentar Jesus Cristo á direita do pai. Pois o enigmático filho de um carpinteiro pensava que tinha o direito, para alem de fazer amor com a Mãe, usurpar o trono do Pai. E não fora a entrada atempada dos Israelitas – “Smeshes, Iaesus,” – e os Palestinianos entregavam a faixa de Gaza sem maiores problemas, para mágoa dos americanos e risota geral dos russos.
A Comunidade Europeia aguardava ansiosamente.
O primeiro ponto da Cimeira era a BEATIFICAÇÃO DE JOSELITO.
Ponderava-se muito seriamente elevar Joselito, á mesma categoria dos Santos Apóstolos. Mas tal escolha não tinha a unânime concordância entre todos. Registava-se mesmo um empate técnico, e esperava-se que o voto de Nossa Senhora viesse a decidir a contenda, talvez pendendo para o lado da não santificação do estranho mexicano, pois a mãe dos céus não era muito ligada ás coisas do sexo. Tinha, inclusive, gerado sem haver penetração. Ainda por cima era virgem, o que constituía na realidade um problema para Joselito.
Na terra o Santo Padre aguardava ansiosamente por noticias vindas do alto, para proceder, ou não, á exumação do corpo de Joselito. Mas deparava-se-lhe um problema de inquestionável dificuldade: não existia qualquer corpo.
Aliás na terra Joselito era, quase, um mito. Desaparecera de circulação, pensava-se que estivesse morto, mas como ninguém teria visto o corpo e não houvera funeral, corriam rumores de que o tinham visto nas praias de Copacabana a tomar banhos de sol, e fazendo amor com a irmã do Papa.
Talvez devido a tão estranho boato a inclinação do Santo Padre não fosse muito favorável a Joselito, o que talvez não constituísse um handicap.
Bem pelo contrário, a Senhora de Fátima não nutria qualquer tipo de simpatia pelo Papa. Considerava-o até um pouco ordinário. Teria, aliás comentado entre o seu grupo de amigas, que “aquele velho careta tem uma atracção muito pouco idónea por mim. Já repararam a quantidade de vezes que ele vem a Portugal ?”(sic), o que levantou alguma celeuma entre Deus e o Pontificie.
Chegando o primeiro a desafiar este ultimo para um duelo. Atirou-lhe mesmo com uma luva de borracha ás faces, e chamou-lhe bêbedo.
Teria tomado proporções de Cisma, se Jesus Cristo, a bem da harmonia familiar, não se intrometesse, e chamasse o Pai á razão.
Terá mesmo marcado uma consulta para o Progenitor num famoso psiquiatra, e ponderando a hipótese da sua destituição por incapacidade mental, começou a preparar-se para assumir a natural ascensão ao Trono dos Céus.
Mas não tomou em conta a resistência de Deus, e as cartas que este teria ainda para jogar.
Joselito, completamente alheio a todos os imbróglios Celestes, ( a secretária continuava sem dar de si), continuava impávido e sereno o seu caminho, nesta altura já tinha deixado de pensar, e começava a sentir dentro de si uma ansiedade inexplicável.
Ouvindo uma musica de John Coltranne vinda de um bar, entrou, e sem mais demoras sentou-se na bateria, pediu um Gin-Tonico. Bebeu e pegando nas baquetes tocou. Pediu outro Gin-Tonico. Bebeu e pegando nas baquetes tocou. Largou então as baquetes, pegou nos tomates e saiu
Mas não conseguiu acalmar aquela sensação quase intolerável e aquele peso que se abatia sobre o seu ser. Algo de tremendamente consciencioso o apoquentava.
Foi nesse momento que Joselito deu conta de uma figura que o perseguia: Asdrubal* caminhava poucos metros atrás dele.
Como todos os dias que se passaram, a sua familiar companhia parecia nunca o Ter abandonado.
No entanto, quando passavam defronte a uma montra, Joselito mostrava apenas uma áurea esbranquiçada e o fiel companheiro continuava com a aparência tão grata e que tantas recordações lhe trazia. Reparando mais atentamente, era uma figura demasiado real para ser um simples objecto da sua imaginação.
Surpreendentemente correram duas lágrimas dos olhos de Joselito.
Mas sem estar completamente convencido, roubou uma bicicleta, e pedalou freneticamente abanando a cabeça para um lado e para o outro com tamanha violência que os transeuntes conseguiam ver o vento que a sua deslocação provocava. Mas Asdrubal não o acompanhou na sua deslocação.
Quando Joselito parou e ofegante olhou para trás, o cão apenas lhe deitava a língua para fora, e com o dedo esticado imitava Mr. Bean.
Começou disfarçadamente a andar na direcção do animal, assobiando e olhando para o lado, mas Asdrúbal percebendo e sem se Ter esquecido do mau feitio do dono, ia-se lentamente desviando, mas sem deixar de imitar Mr. Bean com o dedo. Joselito correu um pouco, e o cão também. Joselito fingindo esquecer, encostou-se a um carro. Mirando o cão pelo canto do olho. Asdrubal fingindo esquecer, encostou-se a uma árvore. Mirando o dono pelo canto do olho. Imitando Mr. Bean com o dedo. Nesse instante, o carro arrancou e Joselito, com todos os sentidos virados para o cão, estatelou-se no chão. Começou então a correr atrás de Asdrubal completamente furioso. Joselito corria e Asdrubal gania.
Quando o apanhou a jeito, pontapeou o cão com tal rapidez que ainda hoje as pessoas que passeavam vendo as montras e fazendo as compras do fim do dia não percebem como é que tão franzino animal conseguiu pular tantos metros. E gritavam paralisados de terror: “Chamem o Exorcista! Chamem O Exorcista!”.
Entretanto, Asdrubal no seu voo acrobático tinha-se enfiado, por entre latas e papelões, dentro de um caixote do lixo.
Joselito esperava que o cão saísse pelo seu pé, mas ficou petrificado quando de dentro do caixote do lixo saiu, não Asdrubal, mas um ser humano que tal como ele se encontrava completamente despido.
Um homem, alto, que usava cabelo curto, pintado de verde, e uma barba ás cores, e que, ao tentar sair de dentro de toda aquela porcaria, se
desequilibrou, ao apoiar-se no rebordo do caixote, e estatelou-se com toda a violência, batendo com a
cabeça no chão, perante um Josélito completamente atónito, e que sufocava o riso eminente.
O homem levantou-se, e tentava manter a pose com uma lata enfiada num pé e uma casca de banana no cimo da cabeça. Eram as únicas peças de vestuário que trazia.
Para além de um brinco que usava numa orelha.
Dirigiu-se a Joselito com a mão estendida, que este não apertou. Por principio, Joselito nunca apertava a mão a ninguém no seu primeiro encontro.
Gostava de apertar os seios das mulheres que conhecia no primeiro encontro.
O outro não se importou, mas continuou de mão estendida:
“Olá, sou o Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca.”
Era feio. Possuía feições animalescas, assemelhava-se mais a um sapo que propriamente a um ser humano. E era gago. E continuava de mão estendida.
“ Não precisavas de o afirmar, sente-se a léguas.”
“Não, não percebeste. É assim que me chamo: Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca. Este pivete deve-se ao teu descomunal pontapé que me enfiou no caixote do lixo.
Exclamou o sujeito levando uma mão ao dorido traseiro. E continuando com a outra estendida.
Explicou então a Joselito que tinha tomado a forma do seu fiel companheiro para, mais facilmente, poder chegar junto dele, e assim cumprir com a missão que os Céus lhe tinham confiado. Preparar Joselito para a sua posterior canonização.
Devido ao seu problema na fala demorou tanto tempo a explicar isto, que no fim parecia que se conheciam á semanas. E continuava de mão estendida.
“E depois, de beatificado, o que tenho de fazer?”
“Bom, depois de beatificado, terás de participar em todas as reuniões.”
Josélito sentiu-se mal.
“Ai isso é que não. Ninguém me beatificará contra o meu gosto. E se tu teimares levas um soco, Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca, no nariz.”
“Não me aumentes o nome, é só Cheiro Mal Da Boca, não tenho Nariz no nome. Já o meu avô era só Cheiro Mal Da Boca, o meu pai era só Cheiro Mal Da Boca , e eu também sou só Cheiro Mal Da Boca.”
Respondeu o outro, com uma lágrima no canto do olho, mas pondo-se na defensiva. E sem deixar de continuar com a mão estendida.
Joselito, compreendendo o embaraço, pediu desculpa e apertou-lhe a mão. E tentando apaziguar pediu-lhe que contasse um pouco da sua vida.
Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca contou então, com um certo brilhozinho nos olhos, nostálgicos, como apesar do seu defeito na fala, um defeito que ele reconhecia constrangedor, inibitório, castrante quase, tinha uma virtude muito particular, indelével mesmo: falava Latim com bastante fluência. Nunca se soube onde arranjou tão virtuosa propriedade, mas estudos mais recentes indicam que se poderá dever a uma queda facial sem mãos por altura do seu primeiro aniversário.
E contou que tinha sido o Latim a causa da sua perdição.
E nisto, começou a chorar, sempre com a mão estendida. Joselito voltou a apertá-la, embora um pouco chateado.
Contou que era barman num bar gay, onde um dia entrou um sujeito de quase dois metros de altura, barba cerrada e bastante preta, com um fato de marujo e bastante surrado, com um par de ombros montanhosos e bastante intimidatórios.
Contou como o sujeito tinha passado a noite inteira a olhar para ele de uma maneira muito pouco cordial, e quase sem conseguir disfarçar os seus nojentos apetites.
E voltou a chorar. Sempre com a mão estendida. Que Joselito voltou a apertar. Já bastante irritado.
Acalmando-se, Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca, contou como não se contendo mais esbugalhara os olhos e, esticando o dedo na direcção do repulsivo sujeito, exclamara “exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor”.
E contou como todas as pessoas presentes no bar, que assistiam á cena, correram a procurar o melhor modo de assistir ao terramoto que se adivinhava, sem prejuízo de virem a sofrer quaisquer danos na sua figura.
E contou que, então, e perante o espanto geral, o temível gigante levara as mãos á cara e desatara num tão comovente pranto, exclamando entre soluços, “amantis irae amoris integratio est”, que ele, cuja família Cheiro Mal Da Boca nunca tivera um dedo a apontar na sua direcção, vendo o mal irreparável que tinha cometido, molhou a ponta do nariz na caneca da cerveja e, antes que o pudessem deter, cometera suicídio, encostando esse mesmo apêndice nasal a uma tomada descarnada, que se encontrava por detrás do balcão.
E caiu de joelhos, chorando, sempre de mão estendida. Joselito, não aguentando mais, ergueu-o pelo pescoço e encostando o seu nariz ao dele, exclamou:
“Já te apertei a mão vezes sem conta, trombone entumecido! Ainda não reparaste, bonifrate de boquilha borbulhenta? Ou recolhes já a mão, seu leque lerdo que sofre de leptospirose, ou transformo-te numa gosma de gonorreia a cheirar a queijo gorgonzola!”
Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca respondeu numa voz cujo tom indiciava a ausência de qualquer emoção:
“Preciso de dinheiro para a viagem de volta, pois eles apenas me pagaram o bilhete de vinda, sua impigem impotente que sofre de incontinência intestinal.”
Joselito, num gesto casual, levou as mãos aos hipotéticos bolsos:
“Como podes ver, estou despido.”
“Sim eu também. Lá terei de ir assaltar um banco. E agora tenho de ir que já é tarde. Gostei de te conhecer, Joselito.”
Disse, afastando-se. E, batendo as asas, voou, dizendo adeus.
“ Eu também, Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca. Mas espero nunca mais te ver.”
Respondeu Joselito, dizendo adeus e vendo-o sumir-se no ar, até ser um minúsculo pontinho no céu azul.
Joselito, respirou de alivio.
Mas percebia agora a causa de toda aquela sensação angustiante que o vinha mantendo preocupado: todos os cristãos do mundo inteiro tinham os olhos postos em si.
Rejeitava bem, toda essa responsabilidade em troca de uma queca.
Passaram quarenta dias e quarenta noites e sem haver plena concordância entre os participantes no debate, esgotaram-se as bebidas alcoólicas.
Deus Nosso Senhor, completamente sequioso, começou a sentir uma necessidade quase fisiológica de álcool, bebendo inclusive o perfume Carolina Herrera, que sua esposa guardava com todo o carinho para estrear no dia de aniversário do seu casamento, após tão gravoso acto, passou três dias internado numa clinica particular a fazer um transplante do fígado.
Mas por essa altura as faltas de memória eram cada vez mais constantes e quando lhe deram a escolher entre o fígado de um fenecido jogador de basquete e o de um abstémio esquimó, escolheu o terceiro: o fígado de um alce coxo. Que sofria de parlamitose e que se engasgava a comer.
Sentindo a morte cada vez mais perto, Deus, o Supremo, o Rei Das Eternas Caçadas, Dono Dos Prados Mais Verdejantes a Oeste Do Saarah, começou a sentir duvidas existenciais e uma cada vez mais consistente comichão na testa.
Este episódio veio atrasar ainda mais o processo.
Pois a Virgem Maria continuava indecisa. E eram tão válidas as suas razões que mingúem a conseguia demover e assim levá-la a tomar uma decisão.
Nem mesmo Maria Madalena. Nem Ruth. Nem Raquel.
Tendo nas suas mãos o destino de alguém , Ela não iria arriscar o futuro de uma pessoa completamente desconhecida para si.
Teve então de tomar a decisão mais arriscada de toda a sua carreira de mediadoras de seguros: descer ao planeta Terra.
E ninguém a conseguia convencer dos perigos que tal decisão acarretava.
Nem mesmo Maria Madalena. Nem Ruth. Nem Raquel.
Que levasse pelo menos um segurança, diziam, completamente assustados. Mas Ela respondia com toda a sua candura: “Não preciso de paus de cabeleira! Regressarei quando o galo cantar três vezes:”.
E assim foi.
Mas esqueceu-se da carteira e teve que voltar atrás. Encontrando o seu marido deitado com a secretária Celeste. Foi quando editou o single “Na minha cama com ela”.
Depois de sair da editora tomou então resolutamente a auto-estrada para a terra com o objectivo esplendoroso entre todos: conhecer pessoalmente Joselito.
Entretanto o mexicano quase “entrava em parafuso”, pois não fazia sexo á mais de duas semanas.
De repente vinda do nada apareceu-lhe pela frente a mais linda criatura que os seus olhos tinham admirado e que lhe disse:
“Chamo-me Maria e concebi sem pecado. Se encontrares alguém que também o tenha feito concedo-te três desejos.”
“Está bem. Quero ser mais alto, mais forte e ir o mais longe que puder.”
Mas Joselito estava completamente apaixonado.
E Nossa Senhora começava a sentir uma emoção muito forte dentro do peito.
E a comichão na testa de Deus , O Supremo, começava a tornar-se cada vez mais intolerável.
E decidiu agir. Tinha que tomar uma decisão. Mas Ele, Deus, O Supremo, não se atrevia, nem era capaz, de tomar qualquer decisão, sem se sentir toldado pelo álcool.
O que nesse momento era uma situação bastante difícil: não havia álcool no Reino Dos Céus.
Entretanto Josélito sentindo uma atracção muito forte por Maria tentava convençê-la a entrar numa residencial que se encontrava ali perto. Só que Maria , uma senhora, honesta e decente, resistia a ser infiel ao seu marido. Mas o mexicano era irresistível e ela começava a ceder aos seus encantos.
Foi quando os céus se abriram e Josélito sentiu um bafo horrível a álcool retardado e uma carantonha enorme, com grandes barbas brancas, e olhos chispando encostada á sua, e uma voz poderosíssima rugiu:
“O que pensas que estás a fazer, meu ordinário? A tentar convencer uma ingénua e dedicada esposa e mãe a trair o seu marido e a levá-la a cometer indecências num quarto de uma residencial rasca? Quem é que tu pensas que és? Por este acto que estavas tentando cometer, condeno-te a viver eternamente. E a partir de hoje serás completamente impotente. E muita sorte tens tu, em que eu não te transforme num javali homossexual!”
E dizendo isto, pegou na mão da esposa e delicadamente sumiram-se os dois por entre trovões, raios e coriscos.
E Joselito, mexicano de raiz, e sexualmente activo, transformou-se assim num híbrido ser humano.
A que viriam a dar o nome de Michael Jackson.
*ver manuscrito desaparecido
FIM