quinta-feira, 2 de outubro de 2008

TRAGEDIA EM UM ACTO

(O cenário mostra um anfiteatro grego. Velho e gasto, colunas jónicas ou outras quaisquer, semidestruidas, umas em pé outras não, algumas nem uma coisa nem outra, muitas delas nem por isso. Em palco um coro grego, vestidos á grego antigo, penteados á grego antigo, com umas sandálias como usavam os gregos antigos)

CORO- Iremos hoje contar a trágica história triste, cheia de redundâncias, de Joselito mexicano de raiz. Escutai, ó povo de Atenas, a vida plena deste herói, não muito inteligente é verdade, e que só sabe pronunciar uma palavra com clareza… (elevam mais a voz e cantam á capella) sexo! Sexo! Sexo! (cantam todos afinadinhos, menos um, o mais baixo e efeminado, para quem todos olham com desaprovação) Uma palavra que começou a pronunciar ainda no berço com cerca de quinze dias de idade: (cantam novamente á capella) sexo! Sexo! Sexo! (o mais baixo continua depois dos outros…)

MAIS BAIXO - … sexo! (e leva um calduço)

CORO – Estúpido, analfabeto e míope, Joselito…

(Joselito entra)

JOSELITO – Cambada de gregos maricas, que palhaçada é esta?

CORO (em tom acusador) – Tens que nos respeitar, Joselito, pois nós somos o coro!

JOSELITO- São o quê? Com essas túnicas e a calçar sandálias? O que vocês são é um amontoado de gays gregos, cheios de tradições homossexuais. E quem exige respeito sou eu, não os conheço de lado nenhum e já me chamaram todo o tipo de nomes possíveis.

CORO- Nós apenas recitamos o que o autor escreveu na peça, se está mal escrita não temos culpa! Culpa o autor.

JOSELITO – E quem escreveu esta palermice?

CORO – Não sabemos. Não temos a mínima ideia. (olham uns para os outros e todos negam)

JOSELITO – E porque têm que falar todos ao mesmo tempo? Isto é uma verdadeira salganhada, assim ninguém se entende…

CORO – … nós somos um coro grego. Temos que falar desta forma para acentuar as acções que irão decorrer durante a peça…

JOSELITO – …mas se falasse um de cada vez percebíamos melhor tudo o que vocês dizem. Até porque estão bastante desafinados…

CORO – (embaraçados) … tivemos pouco tempo para ensaiar… e depois não temos vontade própria…

MAIS BAIXO - … eu tenho… (e leva um calduço)

CORO – Somos produto da imaginação do autor…

JOSELITO- … ou da falta dela! Realmente essas túnicas, cor-de-rosa, e essas sandálias…

CORO - … não precisas de estar com dichotes! Aliás, tu também és um personagem. Estúpido, analfabeto, míope, e que só pensa em (cantam á capella) … sexo! Sexo! Sexo!

JOSELITO – Eu existo na realidade! Que só penso em sexo é verdade, estúpido, vai que não vai, analfabeto e míope concedo, agora … eupóclamo!?

CORO – ah, é verdade! E é eupóclamo!

JOSELITO – Vocês irritam!

CORO – … e manco! E ouve mal! E cheira mal da boca… eis o que não deveria ser, um mero produto da imaginação! (apontam para Joselito)

JOSELITO – Eu não sou um produto da imaginação, estão a ouvir?

CORO – És sim. No teatro tudo é imaginação. O teatro é ficção, e é o espelho da vida. Então a vida é ficção. Logo tu és ficção, nós somos ficção e essa gente (apontam para o publico), que não existe na realidade, embora eles pensem que sim, são meros produtos da imaginação de alguém que anda a brincar com tudo isto. E isto é o quê? Isto é teatro ou não?

(alguém do publico começa finalmente a atirar com tomates)

ESPECTADOR- O que isto é, é estúpido, a estupidez mais palermóide que eu já vi! Nem que viva cem anos irei conseguir ver e ouvir uma estupidez tão grande, e exijo que me devolvam o dinheiro. (sai a fazer manguitos)

JOSELITO (que bateu palmas ao espectador) – Ó meninos do coro, vocês querem que lhes prove, de uma forma inequívoca, que eu existo mesmo e vocês também, querem? Sem grandes filosofias eu mostro que nem eu sou, nem vós sois produto da imaginação de quem quer que seja…

CORO – Se fores capaz…!

(neste instante Joselito puxa da sua arma de defesa pessoal, que é o seu elefantino órgão de copulação, e dirige-se para o coro, cujo elementos, apercebendo-se das verdadeiras intenções do mexicano, fogem em todas as direcções; uns para o meio do publico, que os enxota e lhes dá porrada, outros por todas as saídas de cena, enrolando-se nas bambolinas e estatelando-se com toda a força em cima do palco, numa enorme confusão. Menos um: o mais baixo, fingindo que foge, a dar ás pernas como quem corre, mas sempre no mesmo sitio.)

MAIS BAIXO – (em voz de falsete) Ai que ele me apanha! Ai que ele me agarra!

JOSELITO – (pondo-lhe uma mão em cima e preparando-se para lhe mostrar que é um personagem real e não um mero produto da imaginação) Como é que te chamas?

MAIS BAIXO – José Castelo Branco.

JOSELITO – Irra!! Vai-te embora que eu contigo não quero nada!

O SEXO E AS PANQUECAS

Este é o produto de uma conversa, num belo dia de Verão, á sombra de uma tamareira, em pleno deserto do Saara.

É uma reflexão conjunta entre Joselito mexicano de raiz e a Marqueza de Vintamiglia, descendente das mais nobres famílias italianas, uma figura poderosa: alta e farta de carnes, com mais pilosidade facial que o Capitão Haddock e com um par de seios monumentais, imagens pictográficas dos Himalaias. Devoradora feroz de panquecas, este seu hábito só tinha marco de comparação com a fome avassaladora de Joselito por sexo.

Eis a transcrição de um momento histórico, onde se falou de tudo: plantio de beterraba, formas para cozinhar alfarroba, técnicas ajustadas de pentear ananases, cuspir caroços, e o poder eólico das flatulências. E cultura, até se falou de cultura! Estava realmente um calor do caraças!

Marqueza de Vintamiglia – Amigo, gostas de panquecas?

Joselito – Eu é mais gajas. Mas a semelhança entre uma panqueca e um traseiro feminino não me incomoda absolutamente nada. Para alem da analogia fonética…

M.V. – Também já fui para a cama com mulheres. O lesbianismo também não me incomoda absolutamente nada…

J. – Mas a mim incomoda, ora essa!

M.V. - … nos meus tempos de juventude – o Joselito estará recordado -, quando dava aquelas festas monumentais, que não bastas vezes acabavam em colossais orgias e em avassaladores fogos de artifício, acordei na cama com cinco jovens italianas, duas eslovacas e quatro capitães da guarda cossaca. Mas do que eu gosto mesmo é de talos de couve!

J. – Eu não gosto de couve. Couve roxa ainda suporto, faz-me recordar a intimidade feminina, o desabrochar…

M.V. - … não percebo a analogia, é um pouco ordinário, não?

J. – Não, não, não, de todo! Entenda o meu raciocínio: antes de ser roxa, a couve começa por ganhar umas cores rosadas, que ao longo das semanas de desenvolvimento, vai ganhando essa cor mais escura com que acaba por ir para a mesa. Com as mulheres é exactamente a mesma coisa.

M.V. - Continuo sem perceber. Acho um pouco misógino e sexista.

J. – Pelo contrário, bastante realista, e cientifico. Mas a Marqueza estava falando de talos de couve…

M.V.- Sim, gosto de talos de couve. Há-os de todos os feitios e tamanhos. E também a semelhança entre um talo de couve e um homem é espantosa: ambos têm pouca utilidade…

J. - … o homem mexe-se!

M.V. – Tambem um talo de couve quando lhe dá o vento.

J. – Já comeu panquecas com sabor a talo de couve?

M.V. – Claro. Já comi panquecas feitas de tudo o que é possível. Até de chinês careca! Mas prefiro as de alforreca de Madagáscar.

J. Eu gosto muito de asiáticas, e de europeias. As africanas são muito boas e as sul-americanas são especiais, assim como as…

M.V. - … estás a falar de panquecas?

J. – Acha Marqueza?

M.V. – Então vamos mudar de assunto.

J.- Boa, vamos falar de sexo!

M.V. – Eu como mulher preferia falar de amor.

J. – E não é a mesma coisa?

M.V. – Há diferenças entre uma coisa e outra.

J. – É possível, mas eu ainda não descobri quais.

M.V. – O amor faz-me lembrar uma panqueca italiana. A sensualidade latente nas panquecas italianas só é comparável ao nascimento de um filho.

J. – Também devo ter um filho em Itália! Não tenho bem a certeza, mas na Grécia e na Malásia é mais que certo!

M.V. – Bem, e se falássemos de arte? O Joselito quer ouvir o meu poema sobre panquecas?

J. – Claro, é um imenso prazer, Marquesa!

M.V. – Aqui vai:

Acordei moída e esfomeada,

E até com uma enxaqueca:

Quando dei por mim estava estarifada

Na cozinha a comer uma panqueca!

J. – Bravo Marqueza! Lindíssima! A Senhora sempre foi uma poetisa extraordinária! Os seus saraus culturais estão na história, marcados para sempre na memória de todos os que neles tiveram o privilégio de participar.

M.V. – Quer ouvir outra?

J. – Já que insiste.

M.V. - O meu amor estava com frio

E eu não sabia das cuecas,

Sentei-me num banco e sem dar um pio

Fartei-me de comer panquecas!

J.- … mais não por favor, excelentíssima Marqueza, até estou com lágrimas nos olhos de tão comovido…

M.V. – Estava no mar alto a nadar,

Quando vi uma alforreca,

Deu-me uma fome e sem parar

Comi-a como se fosse uma panqueca.

J. – Tenho que me ir embora, Marqueza, já estou a ficar atrasado…

M.V. - … Sei que não sou bonita

Mas também não sou nenhuma marreca,

Agora o que eu gostava mais na vida

Era de ser mesmo uma panqueca.

J. – Até amanhã Marqueza! Tchau!

M.V. – Ainda tenho mais umas quantas Joselito! Oh, e não é que está mesmo cheio de pressa? Até vai a correr!

ROSA SELVAGEM, JOSELITO E MARIA PAPOILA- J'AIME LES TROIS

“Ou se faz sexo ou se pensa…” Divagava Maria Papoila, com as pernas enroscadas nas de Joselito. Do outro lado da cama, Rosa Selvagem ressonava, extasiada, depois da turbulenta noite de amor proporcionada às duas, pelo bem fornecido mexicano. Este ressonava ainda mais alto.

Impedida de se concentrar, nas suas divagações, pelo barulho sonoro feito pelo casal, levantou-se e foi até á janela, que abriu de par em par, deixando entrar o sol matinal e sendo, dessa forma, atingida pelos odores putrefactos da imensa e desorganizada metrópole que é Banguecoque*.

“Fazer sexo é inteligente. Quando se faz sexo não se pensa, ou então o acto não presta. Sendo assim, pensar não é inteligente, mas comer tremoços… bem, os tremoços vão melhor com as cervejas do que a praticar sexo! Sinto-me um pouco baralhada…”. Chegando a essa conclusão, Maria Papoila debruçou-se na janela, para observar a confusão animada das ruas, e sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Este gajo não descansa!”.

Maria Papoila fazia sexo dez vezes por dia, desde os seis anos de idade. Esta sua precocidade era bastante admirada, e invejada, pelas pessoas da pequena vilazita da Galiza, onde cresceu e viveu até aos catorze, altura em que a sua família teve de se mudar para a grande cidade, em busca de melhores condições.

Sua mãe compunha boleros, e seu pai trabalhava numa fábrica de confecção de esfregões para lavar restaurantes que apenas abriam ao fim de semana. Como o negócio da restauração não era dos mais desenvolvidos, José Papoila tinha sido despedido, vendo-se na contingência de ir trabalhar com os filhos, irmãos mais velhos de Maria Papoila, pescadores de ostras. Mas, por qualquer obscura razão da natureza, estas encontravam-se em abstinência sexual e não se reproduziam, sendo toda a família dos Papoilas obrigada a partir para a América Latina, deixando o coração destroçado á imensa maioria masculina da pequena vilazita galega.

Vendo qualquer coisa que lhe chamou a atenção, Maria debruçou-se, ainda mais, na janela e sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Este gajo não descansa mesmo!”.

Do outro lado da rua, no prédio em frente ao seu, um pombo-correio, observava Maria Papoila, piscando os seus olhitos amarelos. Abanando a cabeça de um lado para o outro e dando pulinhos, ora numa pata ora noutra, encontrava-se tão absorto que, escorregando do varão da varanda em que se encontrava pousado, estatelou-se com enorme alarido sobre um riquexó, puxado por um pequeno e afogueado autóctone, que passeava duas americanas texanas, sessentonas, matrafonas e bolorentas.

“Seria o Espírito Santo?” - questionou-se Maria. E num grito pleno de esperança, apressou-se a ir ter com o pombo-correio, que entretanto, num imenso chafurdar de penas, tentava evitar as porradas histéricas que as duas americanas lhe tentavam aplicar.

Agachando-se para apanhar as cuequinhas, sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Será que este gajo nunca descansa, pá?”.

Entretanto a pequena ave conseguira escapulir-se para debaixo do riquexó, esperando, angustiosamente, que alguém o fosse salvar, ou que as duas bélicas texanas se cansassem de o tentar atingir com as vassouras, que com poderosos movimentos iam ondulando, perigosamente, pelo ar.

Maria Papoila, apercebendo-se de que a vida do pombo-correio poderia estar em risco, ou então de sofrer sérias mazelas físicas, começou a descer as escadas com toda a pressa que podia, mas perdendo um sapato, agachou-se para o apanhar e sentiu o corpo quente de Joselito encostar-se no seu. E sentiu que ele a penetrava por trás: “ Dasse… é que este gajo não descansa nunca!”.

Na rua, perante um ajuntamento cada vez maior de moradores atraídos pelos gritos do condutor, e o piar aflito do pombo, as duas americanas aplicavam pauladas cada vez mais fortes no riquexó, já semi-destruido. Mas ninguém pensando em acudir á pobre ave, que, com sérias duvidas em relação á bondade humana, começava justamente a rever a vida em flashback. A sua única hipótese, Maria Papoila, nunca iria chegar a tempo, pois quando se inclinara para desviar o tapete em frente da porta sentira o corpo quente de joselito encostado no seu. E sentiu que ele a penetrava por trás. “Nunca, mas nunca mais, ponho os pés nesta casa, eu não me chame Maria Papoila!”

Então, estando a vida da ave por um fio, o pobre columbídeo sem qualquer hipótese e um enorme aglomerado de asiáticos de mãos no ar, as senhoras dando gritinhos de aflição, os pais tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o sacrifício eminente, eis que as duas americanas texanas, sessentonas, matrafonas e bolorentas agacham-se, num último esforço, para conseguir atingir o pombo-correio e, uma, depois a outra, sentiram o corpo quente de Joselito encostado no seu. E, uma, depois a outra sentiram que ele as penetrava por trás.

“God, como é bom viver em Banguecoque!”.

* notar a semelhança fonética.

UM ESTUPIDO É UM ESTUPIDO

Um estúpido tem sempre cara de estúpido, quer ele queira quer não. É difícil dizer porquê, mas com o passar dos anos um estúpido acaba sempre por se parecer o mais possível com um estúpido mais estúpido que um estúpido. Seja em Marrocos ou na Austrália, cara de estúpido: premio Nobel ou borra-botas, cara de estúpido. E o mais curioso em toda esta estupidez, é que têm tendência para ser, ou pretendem ser, presidentes de qualquer coisa: é um facto indesmentível e mais que provado que o objectivo maior de um estúpido, é ter poder, mandar em qualquer coisa. Normalmente são os gajos com pila pequena. Quanto mais pequeno e mais falacioso o falo, maior o cargo e consequente poder que detêm. Poderemos deduzir então: homem poderoso, ou com pretensões a sê-lo = pila curta, e fininha.

Ora, mas esse poder, que o cargo logicamente infere, poderia amenizar os estragos que a estupidez patética de um estúpido pretensamente poderoso provoca na vida presente e futura dos outros, mas não, nada de mais errado: ou por paquidérmica prepotência, ou por casualidade defeituosa da natureza, o poder que detêm potencia os danos que a idiotice, a palermice, a parvoeira dos seus actos provoca nos indivíduos que estão sob o seu jugo.

E o mais curioso de tudo, é que são donos de uma perseverança do ser néscio, que ao invés de ser trágico até se torna, deveras, divertido.

Miguel Leopoldo Milciades, presidente da república daquele pequeno país da América latina, até na lua sem capacete lunar, seria sempre um exemplar perfeito do que acabamos de falar: alto e louro, físico de quem resolveu não fazer grandes esforços, carecido de quaisquer pilosidades, olhos castanhos e pequenos, lábios gretados e orelhas em forma de couve-flor, já tinha ar de estúpido, mas quando começou a falar naquela sua voz de serra eléctrica a cortar um nó de pinho, Joselito ficou com todas as dúvidas desfeitas: idiota.

“Pois, sabe, meu caro Joselito, sendo certo que tenho quatro palmos de costas e peso noventa quilos, não posso arcar com todas as responsabilidades! Não tenho culpa de o senhor julgar que a fanfarra oficial da guarda pessoal do Presidente toca demasiado alto e desafinada, opinião contrária á minha. Os metais talvez, mas os tambores são uma delicia… aquele pum-pum-pum…! Que maravilha! Demonstrativo, elucidativo da forma como nós neste pequeno país, possuidor de parcos recursos, oprimido pelas potências vizinhas, imperialistas e colonialistas, tratamos a nossa cultura! Pum-pum-pum! Fantástico! E os pratos…? Traz-traz-traz…! Cultura, é assim que se deve cuidar da cultura: pum-pum-pum, traz-traz-traz!!” – e levantando-se, quase num salto, Milciades começou a marchar, exemplificando de uma forma bastante exagerada, toda a parvoeira barulhenta que a sua fanfarra, um projecto pessoal seu, conseguia, sem aparente esforço dos seus elementos, tocar. “Mentecapto.” – Confirmou Joselito.

De repente, o presidente parou com a sua histriónica e a macacada demonstração de uma fanfarra, apontou o dedo a Joselito e, numa crescente irritação, a serra a patinar no nó de pinho, o organismo deveras próximo de uma síncope, disparou:

- “Inveja! É a inveja e a dor de cotovelo que move essa cambada de ignorantes, contra a minha pessoa! Contra a nossa obra! Grandiosa obra em prol do povo! Tudo pelo povo e para o povo! Viva o povo! Viva o povo!” – gritou, espumando gafanhotos, nuns agudos que se ouviam do outro lado do planeta, e que normalmente atrairiam alguém pensando tratar-se de uma tragédia ou de um atentado presidencial, não fosse os seguranças e demais chefes de gabinete, num descuidado encolher de ombros, estarem habituados às disparatadas gritarias furibundas de tão excelso personagem. E recomeçou a marcha pela enorme sala, que se poderia atravessar de jipe, pulando, braço bem esticado, punho levantado, como se estivesse numa manifestação pós-revolução, dando pontapés, nas cadeiras, mesas e cinzeiros que se cruzavam no seu caminho – as que não se cruzavam, Milciades fazia questão em desviar-se da sua rota e enfiar-lhes tremendos pontapés numa fúria destruidora já com hábitos enraizados. E encostando a cara na de Joselito gritou:

-“ E tu, meu mexicano de merda, não foi para conspirares contra nós que te contratámos!” –

-“Cro-magnon!” pensou Joselito antes de falar calmamente –“Sabe Excelentíssimo Presidente, por mim está tudo bem. O barulho não me incomoda, absolutamente nada. O problema é que a maior parte das senhoras da nossa capital – digo nossa, pois já considero este país como meu –, assim como a sua digníssima esposa, queixam-se de não terem forma de se concentrar, quando se encontram em pleno acto de fazer amor.”

Milciades começou por coçar a testa, baixou o tom de voz, dirigiu-se á secretária e sentou-se.

-“Bem, se é pela minha Lucrécia Lorelei, bem vistas as coisas, podemos fazer umas pequenas alterações na fanfarra, substituir os tambores por uns berimbaus, os metais por uns pífaros, e os pratos… o que fazemos dos pratos, Joselito?”

- “Estalar de dedos?”

-“Seja!” – animou-se Miguel Leopoldo Milciades - que embora tivesse o mesmo nome do general grego vencedor dos persas, era bem menos perspicaz -, imaginando um aglomerado de homens em calções e de meias até aos joelhos, a tocar berimbaus, pífaros e a estalar os dedos.

Joselito despediu-se e saiu, despreocupado – “ Este é que é um verdadeiro inhenho!” – suspirou.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ROSA SELVAGEM, SEMPRE NA HORIZONTAL!

… e eis que aparece a indecorosa Rosa Selvagem na vida do indefectível Joselito, formando um par indecomponível. “

Barbara Pústula era de uma crueldade, mesquinhez e ferocidade só superadas pelas de sua própria mãe, a avó de Rosa Selvagem. Um dia zangada com o seu incipiente marido, Ricardo Pústula Cinzenta, por quaisquer obscura razão , agarrou num auto-coçador, todo em prata, e bateu-lhe com tanta força na cabeça que o pobre homem ficou desmaiado no chão. Em seguida arrastou o corpo desfalecido para o pé do sofá, colocou-lhe a cabeça em cima do mesmo e sentando-se em cima dele, com as gordas nádegas balofas, asfixiou-o.

Este macabro episódio passaria completamente despercebido, pois Ricardo Pústula Cinzenta era um desses homenzinhos insípidos e insignificantes, que passam pela vida sem darmos sequer conta que existe, a não ser quando se estatelava com toda a força no chão, tropeçando nos próprios pés, o que acontecia amiúdes vezes. Ou quando os colegas escolhiam a sua cabeça em forma de ovo, como alvo para sonoros calduços.

Mas a excitável e nervosa senhora, em vez do sossego de sua casa e sem ninguém por perto para o poder contar, escolheu justamente o dia de aniversário de sua filha para, perante os olhares extasiados dos convidados, da orquestra de tocadores de Ukelele, dos palhaços e das cabras amestradas, cometer tão distinto e contundente acto homicida na pessoa do seu mesquinho e vulgar marido.

Poderia ter acarretado alguns problemas mais sérios á mãe de Rosa Selvagem, este acto funesto, se os Pústula não fossem uma das mais poderosa e ricas famílias de Inglaterra, a senhora Pústula era mesmo prima de sua majestade A Rainha, cumpridores de todos os ritos inerentes á nobreza e clientes assíduos da igreja anglicana. Embora secretamente e em surdina comentassem que o Espírito Santo era um pouco simplório, aparvalhado mesmo; mais lorpa que ele só o Buda e o Maomé.

Mas o homicídio passou sem grande alarido nos jornais, fazendo-se notar por algumas e simples notas de mais episódios divertidos da família Pústula, troca de dichotes familiares no clã Pústula, etc. Tendo mesmo um jornalista, com ligações á casa real, escrito que a graciosa Bárbara, num “fervente acesso de amor lírico”, tinha feito demasiados carinhos ao seu fleumático Ricardo.

Terá este funesto acontecimento marcado de algum modo a ambiguidade moral de Rosa Selvagem? Nunca se saberá ao certo, mas que ela saiu de casa a correr, uivando e a dar patadas, juntamente com as outras crianças, os tocadores de Ukelele , os palhaços e as cabras amestradas, é um facto indesmentível. E que a partir desse dia não consta que tenha tido qualquer reatar de relações com a mãe, são certezas inabaláveis.

Desse dia em diante, e com dez anos apenas, começou a participar em festas que não bastas vezes acabavam em desenfreadas orgias.

Foi crescendo e desenvolvendo uma elegância e beleza arrebatadoras. Aumentando a sua panóplia de truques e posições sexuais. E coleccionando amantes uns atrás dos outros.

E um dia conheceu Joselito. Debaixo do vão de uma escada curiosamente ou por ironia do destino, os dois com uma vontade enorme de urinar, devido á quantidade fabulosa de bebidas alcoólicas que tinham acabado de ingerir.

A partir desse momento a vida de ambos nunca mais a foi a mesma

sábado, 23 de agosto de 2008

KAGASHICA O EMPEDERNIDO GUERREIRO COMEDOR DE CAVALAS


Kagashica, ”O empedernido guerreiro comedor de cavalas”, envergou a sua pesada armadura, tomando assim o aspecto de um carro alegórico, ajustou o cinturão e passou o dedo pelo gume afiado de sua espada: malévola rebotalha da humanidade, ceifeira de milhentas de promessas de vida – que depois de se cruzarem com ela, não passam disso mesmo, promessas.
Saiu da tenda general, sem esquecer o elmo dourado, ornado com um penacho penitente e duas hastes, que por sinal lhe ficavam bastante bem, e sentiu o vento quente e árido do deserto de Gobi fustigar-lhe as faces, ornamentadas por uma barba negra e cerrada que começava a encaracolar no fim.
Afagou-a, alisando, e sorriu em antecipação da gloriosa vitoria na batalha que se aproximava. Mostrando os dentes podres e amarelos.
Pousou o elmo no chão e ajoelhou-se para fazer as necessárias orações aos deuses da guerra, jogando areia ao ar, ora para a esquerda, ora para a direita, como se estivesse numa praia da Caparica.

No outro lado do campo de batalha, empoleirado no ramo mais alto de uma árvore seca, envergando apenas uma simples tanga de vermelho vivo com um coração amarelo-torrado estampado na parte da frente, e empunhando uma garrafa de gim, Joselito observava com descuidada indiferença aquela paisagem desolante, notando o exército inimigo acampado ao longe, no cimo de umas dunas.
Sabendo-se atentamente observado pelos seus dedicados e expectantes guerreiros, que lhe admiravam o corpo esquálido e a imponência da sua ossatura, Joselito esticou os bícepes inexistentes e saltou do seu posto de observação, torcendo um pé na queda e partindo os dentes, mas, miraculosamente, conseguindo equilibrar a garrafa sem entornar uma única gota de gim. Levando os soldados em êxtase a soltar gritos de admiração e a ululantes aclamações que se ouviram no campo do exercito antagonista. Elevando a garrafa ao ar, em sinal de triunfo, dirigiu-se para a sua tenda, coxeando, seguido por todo um exército, que rendido a tão grande demonstração de destreza e formidável sacrifício, coxeava também, gritando: “Creio no álcool! Creio no álcool!”.
Joselito, apontando os seus quatro generais de campo, incitou-os a que o acompanhassem, para delinear estratégias, preparando o combate que se aproximava. Eram eles: Bebetudo, que nunca rejeitava carga e não fazia uso interno de águas medicinais, ou qualquer outras; Esgotapipas, que recusava água de toda a gente e era casado em união de facto com uma garrafa de aguardente; Secadegas, que nunca comia uvas e nem consentia que as comessem ou estragassem; e o mais pequeno, mas não menos heróico, Secalambiques, que socorria qualquer pessoa que se encontrasse cambaleando e dando encontrões nas paredes, mas passava a fio de espada, sem quaisquer remorsos, todo aquele que passando frente a uma pipa cheia, não tivesse a necessária atenção para lhe fazer continência.
Com o rosto cor de camarão, o nariz cor de cenoura e em forma de torneira, olhos inflamados e remelados, e uma barba cor de borras de vinho, era nestes quatro valentes, com tantas provas dadas em outras temíveis batalhas, que Joselito, mexicano de raiz, sexualmente hiperactivo, depositava toda a confiança.
Sentando-se os quatro á mesa redonda, em completa comunhão, e num êxtase quase religioso, começaram por rezar o “Creio no álcool a 42 graus, todo poderoso e criador de formidáveis carraspanas…”. Depois, pegando numa cartolina, desenrolando-a sobre a mesa, Joselito começou a desenhar a estratégia. Escrita cuneiforme para os seus acólitos.
Lá fora ecoavam ainda os gritos e as manifestaçõe de jubilo da parte do exercito de pequenos e possuidores de farfalhudos bigodes, mexicanos. Escondidos debaixo de grandes chapéus.

A figura 1 mostra a táctica de guerra de Joselito.
Figura1

Sai uma coluna, depois outra e depois outra. Chegando a meio do campo de batalha, a coluna da esquerda vira á esquerda e a coluna da direita vira á direita ( se não for assim é natural que choquem uns com os outros), correrão em círculos tão depressa quanto puderem e de dez em dez metros, agacham-se e batem as palmas. A terceira coluna, a do meio, mais ou menos a meio do campo de batalha, vira para trás e corre o mais depressa que as pernas o permitirem. Será esta coluna que Joselito, o chefe, comandará.

Kagashica, que entretanto conseguira desenvencilhar-se do enorme monte de areia que juntara sobre si, com a prestimosa ajuda de Seringa, o seu marechal de campo, dirigia-se para o altar dos sacrifícios, gritando ainda com a boca cheia de areia: “Vamos fazer o maior sacrifício que os Deuses já tiveram a honra de receber! Tragam imediatamente dez lamas do Peru, outros dez Lamas do Tibete *, quatro cordeiros, um quilo de limões e uma cebola! Não há tempo a perder, acendam a pira!”.
Milhares de soldados, de armaduras coloridas, imensos carros alegóricos, prostrados em fanática oração.

Se os Homens não se deixassem toldar pela iniquidade, pela crueldade, pela insensatez e neste caso, pelo ciúme, todo o derramamento de sangue que estava prestes a acontecer seria evitado. Se Kagashica não fosse tão empedernido, mais racional em vez da grandessíssima besta belicosa bestunta bexigosa que na realidade era, Joselito, o herói mexicano, estaria agora na praia.
Joselito conhecera a Princesa Li, filha do imperador Shingamula, esposa de Kagashica, “O empedernido guerreiro comedor de cavalas”, o ano passado quando ela passeava com o seu numeroso séquito, numa feira em Carcavelos. Li Nhon Nhin, portadora de uma figura singular, possuía uma daquelas belezas orientais que faziam imaginar todas as artes do Kamasutra: rosto oval, olhos grandes e amendoados, estrábica; corpo esguio, bem torneado por uma apertada túnica de seda azul, calçava o quarenta e cinco e tinha uma verruga no nariz. E nessa tarde em Carcavelos apetecia-lhe… algo. E não era Ferrero-Rocher. Era algo que Joselito percebera quando os seus olhares se cruzaram.
Kagashica “O empedernido guerreiro comedor de cavalas”, que no campo de batalha inspirava terror e granjeava glória, cortando centenas de cabeças inimigas, soldado implacável, no aconchego do quarto, na quietude da sua casa e na plácida calma dos seus jardins, preferia a poesia, os seus desenhos de cerejeiras em flor e o teatro Kabuki, que representava vestindo um quimono cor de rosa, andando em passinhos curtos, e fazendo uma voz tão fininha, tão fininha, que os vizinhos num
raio de três quilómetros, ao ouvi-lo fugiam de suas casas em grande alvoroço, pensando tratar-se da sirene dos bombeiros.
Tudo isto adivinhara o mexicano, com o seu particular sexto sentido sexual superdesenvolvido.
Joselito e a filha do Imperador tinham-se tornado imediatamente amantes, fazendo amor durante três dias e três noites, descansando ao terceiro dia conforme as escrituras.
Tinham sido estes os factos que despoletaram a ira e sobrecarregaram a cabeça de Kagashica, empedernido guerreiro, levando-o a convocar todo o seu exercito, deslocando-o ao encontro de Joselito para assim vingar a sua honra. E recuperar o quimono cor de rosa que Li Nhon Nhin lhe roubara.

(continua)


*ver Joselito o supremo prostituto

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A beatificação de Joselito

A BEATIFICAÇÃO DE JOSELITO

Joselito, mexicano de raiz , tinha alcançado outro estádio.

Mudara completamente a sua personalidade. Tinha apenas uma noção muito vaga do que fora anteriormente: era sexualmente activo, e de uma maneira bastante exagerada.

Mas nesse instante encontrava-se terrivelmente zangado.

Quando falecera, se extinguira, quando terminara a sua existência, expirara, cessara de viver, desaguara, gafara, batera as botas e chegara ao céu, quando São Pedro lhe escancarou as portas, a sua revolta atingira proporções de inusitada violência. Fracturara a cana do nariz ao Santo e partira as pernas aos seguranças para além de Ter atirado á cabeça de Nosso Senhor com um exemplar do Trópico de Capricórnio de Henry Miller.

Como supremo castigo tinha sido obrigado a dormir com Lili Caneças.

As primeiras semanas ainda aguentara mas, passado um mês, quando a senhora lhe pediu, com muita educação, se lhe poderia obsequiar um “felattio”, Joselito não aguentara mais e tinha regressado á terra.

Roubara as asas de um anjo, que se encontravam penduradas num cabide, mas escolheu umas já velhas e gastas. Então, quando tomou o caminho de regresso, as asas derreteram e não fora a Providência Divina , Joselito Ter-se-ia estatelado com toda a violência num passeio da 5th Avenue.

Muito provavelmente sofreria algumas mazelas.

Quando acordou, exactamente no meio do Central Park, sentiu-se estranho. Em pleno mês de Dezembro, com o Natal á porta, a dormir completamente nu num banco de jardim, era suposto não acordar.

A sua estranheza aumentou na medida em que percorria as ruas, com as suas partes pudibundas a dar a dar, e as pessoas nem sequer reparavam, os olhares de admiração que costumava suscitar, eram agora completamente inexistentes. Recordou, com estranho desagrado, certa vez que estava deitado com uma morena num catre, num bairro da cidade de Manila; uma colega da sua companheira entrara com um parceiro, para se dirigir ao quarto ao lado, e reparando nas suas protuberâncias dissera, com os olhos abertos de admiração: “Deus tos conserve, jovem!”.

Pensando nisto, Joselito, habitualmente pouco cerebral, ia andando a largas passadas, quando começou a atravessar a avenida fora da passadeira. De repente tomando consciência do perigo, olhou para o lado e viu o taxi amarelo vindo na sua direcção.

Apenas sentiu uma ligeira impressão quando o carro o atravessou sem que o condutor esboçasse o mínimo sinal. Percebeu então o que lhe estava acontecendo.

Joselito estava morto.

Após o choque inicial, de perceber quanto a sua vida mudara, o seu instinto de sobrevivência veio ao de cima e começou a pensar nas vantagens que poderia tirar do facto de não Ter um invólucro que o incomodasse. E poder passar despercebido perante os seres humanos poderia não ser realmente um “handicap”.

O seu primeiro pensamento, como é natural vindo de pessoa tão activa sexualmente, foi o de como tirar prazer de um acto que para ele tinha sido como respirar, pois Joselito detinha todos os recordes conhecidos de contenção. Mas teria de arranjar roupas, para qualquer eventualidade – “Ninguém sabe o dia de amanhã!” – pensou, tristemente.

Foi então que sentiu uma horrível dor de dentes. Estoicamente dirigiu-se a um consultório de estomatologia onde a secretaria era uma estonteante estoniana, embora um pouco estólida. E para alem disso, como era estrábica, talvez pudesse ver a sua figura.

Foi quando tomou conta de toda a ridícula situação que estava vivendo . Se lhe podiam doer os dentes e mais estranho ainda, se tinha sexo, e ele via-o, sentia-o, então não era um anjo. Ou então, toda esta situação porque estava passando, vinha pôr em causa tudo o que lhe ensinara a catequista. Estaria tudo mal? Ou, muito possivelmente, o sexo dos anjos era aquele que permite a cópula com as fêmeas, e não o contrário!

Sendo assim, talvez Deus fosse negro, ou mongol, possivelmente até mongolóide, ou mesmo judeu! Era bem possível que existisse uma forma de sair daquela situação absolutamente absconsa que o estava absorvendo, nem que tivesse de ingerir absinto abstergente.

Pensou, absorto.

E depois de pensar, o que Joselito fazia com alguma dificuldade, riu.

E riu, riu, riu tanto, que o estômago lhe cresceu quinze centímetros.

“É do colesterol!” – disse para consigo. E sentou-se na cadeira de um engraxador.

Chegou uma velhinha que se sentou ao seu colo, sem dar por isso. Aquela singela velhinha lembrava-lhe alguém! Depois de muito pensar, o que levou algum tempo, lembrou-se de tão grata figura. Era a sua avó. Que lhe tinha inspirado, quando ele era muito miúdo, os melhores sonhos lascivos que uma criança a despontar para os segredos da vida pode Ter.

Lembrou-se daquelas pernas gordas, com varizes, que ele admirava sentindo uma crescente crepitação criacionista. Foi então que fez o seu primeiro manual criptográfico.

Tinha seis anos.

O segundo fê-lo aos quatorze, quando uma matrona gorda, sua vizinha, se enfiou debaixo dos seus lençóis – depois dos pais terem saído para o mercado – e lhe ensinou qual era a diferença das pessoas estarem divididas entre homens e mulheres.

Depois disso nunca mais comeu lacticínios.

Mas comia verduras, muitas verduras.

Joselito comia tanta alface, que os seus pais, viram-se na necessidade de pintar as paredes do seu quarto de verde.

Foi sempre a sua cor favorita. Gostava tanto de verde, que a sua primeira detenção ocorreu quando agrediu um jardineiro municipal por andar a podar as árvores. O que não lhe serviu de emenda, pois anos mais tarde, foi encarcerado novamente sendo apanhado em flagrante a partir os vidros das janelas do Partido Comunista, como retaliação.

Quando passava por uma miúda vestida de verde, não se continha e exclamava : “Se isto é assim em verde imagina em maduro!”. Partiram-lhe o nariz cinco vezes, pois nem sempre escolhia a altura devida para o dizer.

Foi quando escreveu o terceiro manual criptográfico.

Pensando isto, com uma natural dificuldade, ia andando a grandes passadas, quando sentiu calor numa nádega. Voltou-se e deparou com uma criancinha a olhar para ele, os olhos tão abertos de um divertido espanto que Joselito, quase caía de assustado.

“Tu não tens frio?”

“Podes ver-me?”

“Claro. E o que fazes aí com a pilinha do elefante do Jardim Zoológico?”

Joselito, que detestava crianças, não conseguiu conter algumas lágrimas de arrependimento.

Pegou no miúdo, levantou-o no ar e deu-lhe dois beijos nas bochechas rosadas, uma cor que ele não gostava. Perante o olhar admirado das pessoas que passavam na rua e viam o pequeno elevando-se sem razão aparente., e gritavam, paralisadas de terror: “Chamem O Exorcista! Chamem O Exorcista!”.

Enquanto Joselito seguia o seu sinuoso caminho terrestre, nos céus preparava-se a Iª Cimeira Celeste.

Por obra e graça do anjo Belzebu a Celeste não apareceu.

São Pedro, o presidente da assembleia, e perante o desaparecimento da secretária, com alguma mágoa e rancor, ponderou a hipótese de Joselito ser o culpado do seu desaparecimento. E não fora a entrada atempada de Lucas – São Lucas, por ti América –, a interceder a seu favor, o mexicano passaria quarenta anos em prisão domiciliária na mesma cela de um violador de abades.

Tão extraordinário momento nos Reinos dos Céus passava por um exclusivo, cuja cadeia televisiva que comprou os direitos de transmissão, para todo o planeta, viria a registar o maior share nas cadeias de comunicação.

A maior dificuldade, para os realizadores do talk-show, foi sentar Jesus Cristo á direita do pai. Pois o enigmático filho de um carpinteiro pensava que tinha o direito, para alem de fazer amor com a Mãe, usurpar o trono do Pai. E não fora a entrada atempada dos Israelitas – “Smeshes, Iaesus,” – e os Palestinianos entregavam a faixa de Gaza sem maiores problemas, para mágoa dos americanos e risota geral dos russos.

A Comunidade Europeia aguardava ansiosamente.

O primeiro ponto da Cimeira era a BEATIFICAÇÃO DE JOSELITO.

Ponderava-se muito seriamente elevar Joselito, á mesma categoria dos Santos Apóstolos. Mas tal escolha não tinha a unânime concordância entre todos. Registava-se mesmo um empate técnico, e esperava-se que o voto de Nossa Senhora viesse a decidir a contenda, talvez pendendo para o lado da não santificação do estranho mexicano, pois a mãe dos céus não era muito ligada ás coisas do sexo. Tinha, inclusive, gerado sem haver penetração. Ainda por cima era virgem, o que constituía na realidade um problema para Joselito.

Na terra o Santo Padre aguardava ansiosamente por noticias vindas do alto, para proceder, ou não, á exumação do corpo de Joselito. Mas deparava-se-lhe um problema de inquestionável dificuldade: não existia qualquer corpo.

Aliás na terra Joselito era, quase, um mito. Desaparecera de circulação, pensava-se que estivesse morto, mas como ninguém teria visto o corpo e não houvera funeral, corriam rumores de que o tinham visto nas praias de Copacabana a tomar banhos de sol, e fazendo amor com a irmã do Papa.

Talvez devido a tão estranho boato a inclinação do Santo Padre não fosse muito favorável a Joselito, o que talvez não constituísse um handicap.

Bem pelo contrário, a Senhora de Fátima não nutria qualquer tipo de simpatia pelo Papa. Considerava-o até um pouco ordinário. Teria, aliás comentado entre o seu grupo de amigas, que “aquele velho careta tem uma atracção muito pouco idónea por mim. Já repararam a quantidade de vezes que ele vem a Portugal ?”(sic), o que levantou alguma celeuma entre Deus e o Pontificie.

Chegando o primeiro a desafiar este ultimo para um duelo. Atirou-lhe mesmo com uma luva de borracha ás faces, e chamou-lhe bêbedo.

Teria tomado proporções de Cisma, se Jesus Cristo, a bem da harmonia familiar, não se intrometesse, e chamasse o Pai á razão.

Terá mesmo marcado uma consulta para o Progenitor num famoso psiquiatra, e ponderando a hipótese da sua destituição por incapacidade mental, começou a preparar-se para assumir a natural ascensão ao Trono dos Céus.

Mas não tomou em conta a resistência de Deus, e as cartas que este teria ainda para jogar.

Joselito, completamente alheio a todos os imbróglios Celestes, ( a secretária continuava sem dar de si), continuava impávido e sereno o seu caminho, nesta altura já tinha deixado de pensar, e começava a sentir dentro de si uma ansiedade inexplicável.

Ouvindo uma musica de John Coltranne vinda de um bar, entrou, e sem mais demoras sentou-se na bateria, pediu um Gin-Tonico. Bebeu e pegando nas baquetes tocou. Pediu outro Gin-Tonico. Bebeu e pegando nas baquetes tocou. Largou então as baquetes, pegou nos tomates e saiu

Mas não conseguiu acalmar aquela sensação quase intolerável e aquele peso que se abatia sobre o seu ser. Algo de tremendamente consciencioso o apoquentava.

Foi nesse momento que Joselito deu conta de uma figura que o perseguia: Asdrubal* caminhava poucos metros atrás dele.

Como todos os dias que se passaram, a sua familiar companhia parecia nunca o Ter abandonado.

No entanto, quando passavam defronte a uma montra, Joselito mostrava apenas uma áurea esbranquiçada e o fiel companheiro continuava com a aparência tão grata e que tantas recordações lhe trazia. Reparando mais atentamente, era uma figura demasiado real para ser um simples objecto da sua imaginação.

Surpreendentemente correram duas lágrimas dos olhos de Joselito.

Mas sem estar completamente convencido, roubou uma bicicleta, e pedalou freneticamente abanando a cabeça para um lado e para o outro com tamanha violência que os transeuntes conseguiam ver o vento que a sua deslocação provocava. Mas Asdrubal não o acompanhou na sua deslocação.

Quando Joselito parou e ofegante olhou para trás, o cão apenas lhe deitava a língua para fora, e com o dedo esticado imitava Mr. Bean.

Começou disfarçadamente a andar na direcção do animal, assobiando e olhando para o lado, mas Asdrúbal percebendo e sem se Ter esquecido do mau feitio do dono, ia-se lentamente desviando, mas sem deixar de imitar Mr. Bean com o dedo. Joselito correu um pouco, e o cão também. Joselito fingindo esquecer, encostou-se a um carro. Mirando o cão pelo canto do olho. Asdrubal fingindo esquecer, encostou-se a uma árvore. Mirando o dono pelo canto do olho. Imitando Mr. Bean com o dedo. Nesse instante, o carro arrancou e Joselito, com todos os sentidos virados para o cão, estatelou-se no chão. Começou então a correr atrás de Asdrubal completamente furioso. Joselito corria e Asdrubal gania.

Quando o apanhou a jeito, pontapeou o cão com tal rapidez que ainda hoje as pessoas que passeavam vendo as montras e fazendo as compras do fim do dia não percebem como é que tão franzino animal conseguiu pular tantos metros. E gritavam paralisados de terror: “Chamem o Exorcista! Chamem O Exorcista!”.

Entretanto, Asdrubal no seu voo acrobático tinha-se enfiado, por entre latas e papelões, dentro de um caixote do lixo.

Joselito esperava que o cão saísse pelo seu pé, mas ficou petrificado quando de dentro do caixote do lixo saiu, não Asdrubal, mas um ser humano que tal como ele se encontrava completamente despido.

Um homem, alto, que usava cabelo curto, pintado de verde, e uma barba ás cores, e que, ao tentar sair de dentro de toda aquela porcaria, se

desequilibrou, ao apoiar-se no rebordo do caixote, e estatelou-se com toda a violência, batendo com a

cabeça no chão, perante um Josélito completamente atónito, e que sufocava o riso eminente.

O homem levantou-se, e tentava manter a pose com uma lata enfiada num pé e uma casca de banana no cimo da cabeça. Eram as únicas peças de vestuário que trazia.

Para além de um brinco que usava numa orelha.

Dirigiu-se a Joselito com a mão estendida, que este não apertou. Por principio, Joselito nunca apertava a mão a ninguém no seu primeiro encontro.

Gostava de apertar os seios das mulheres que conhecia no primeiro encontro.

O outro não se importou, mas continuou de mão estendida:

“Olá, sou o Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca.”

Era feio. Possuía feições animalescas, assemelhava-se mais a um sapo que propriamente a um ser humano. E era gago. E continuava de mão estendida.

“ Não precisavas de o afirmar, sente-se a léguas.”

“Não, não percebeste. É assim que me chamo: Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca. Este pivete deve-se ao teu descomunal pontapé que me enfiou no caixote do lixo.

Exclamou o sujeito levando uma mão ao dorido traseiro. E continuando com a outra estendida.

Explicou então a Joselito que tinha tomado a forma do seu fiel companheiro para, mais facilmente, poder chegar junto dele, e assim cumprir com a missão que os Céus lhe tinham confiado. Preparar Joselito para a sua posterior canonização.

Devido ao seu problema na fala demorou tanto tempo a explicar isto, que no fim parecia que se conheciam á semanas. E continuava de mão estendida.

“E depois, de beatificado, o que tenho de fazer?”

“Bom, depois de beatificado, terás de participar em todas as reuniões.”

Josélito sentiu-se mal.

“Ai isso é que não. Ninguém me beatificará contra o meu gosto. E se tu teimares levas um soco, Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca, no nariz.”

“Não me aumentes o nome, é só Cheiro Mal Da Boca, não tenho Nariz no nome. Já o meu avô era só Cheiro Mal Da Boca, o meu pai era só Cheiro Mal Da Boca , e eu também sou só Cheiro Mal Da Boca.”

Respondeu o outro, com uma lágrima no canto do olho, mas pondo-se na defensiva. E sem deixar de continuar com a mão estendida.

Joselito, compreendendo o embaraço, pediu desculpa e apertou-lhe a mão. E tentando apaziguar pediu-lhe que contasse um pouco da sua vida.

Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca contou então, com um certo brilhozinho nos olhos, nostálgicos, como apesar do seu defeito na fala, um defeito que ele reconhecia constrangedor, inibitório, castrante quase, tinha uma virtude muito particular, indelével mesmo: falava Latim com bastante fluência. Nunca se soube onde arranjou tão virtuosa propriedade, mas estudos mais recentes indicam que se poderá dever a uma queda facial sem mãos por altura do seu primeiro aniversário.

E contou que tinha sido o Latim a causa da sua perdição.

E nisto, começou a chorar, sempre com a mão estendida. Joselito voltou a apertá-la, embora um pouco chateado.

Contou que era barman num bar gay, onde um dia entrou um sujeito de quase dois metros de altura, barba cerrada e bastante preta, com um fato de marujo e bastante surrado, com um par de ombros montanhosos e bastante intimidatórios.

Contou como o sujeito tinha passado a noite inteira a olhar para ele de uma maneira muito pouco cordial, e quase sem conseguir disfarçar os seus nojentos apetites.

E voltou a chorar. Sempre com a mão estendida. Que Joselito voltou a apertar. Já bastante irritado.

Acalmando-se, Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca, contou como não se contendo mais esbugalhara os olhos e, esticando o dedo na direcção do repulsivo sujeito, exclamara “exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor”.

E contou como todas as pessoas presentes no bar, que assistiam á cena, correram a procurar o melhor modo de assistir ao terramoto que se adivinhava, sem prejuízo de virem a sofrer quaisquer danos na sua figura.

E contou que, então, e perante o espanto geral, o temível gigante levara as mãos á cara e desatara num tão comovente pranto, exclamando entre soluços, “amantis irae amoris integratio est”, que ele, cuja família Cheiro Mal Da Boca nunca tivera um dedo a apontar na sua direcção, vendo o mal irreparável que tinha cometido, molhou a ponta do nariz na caneca da cerveja e, antes que o pudessem deter, cometera suicídio, encostando esse mesmo apêndice nasal a uma tomada descarnada, que se encontrava por detrás do balcão.

E caiu de joelhos, chorando, sempre de mão estendida. Joselito, não aguentando mais, ergueu-o pelo pescoço e encostando o seu nariz ao dele, exclamou:

“Já te apertei a mão vezes sem conta, trombone entumecido! Ainda não reparaste, bonifrate de boquilha borbulhenta? Ou recolhes já a mão, seu leque lerdo que sofre de leptospirose, ou transformo-te numa gosma de gonorreia a cheirar a queijo gorgonzola!”

Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca respondeu numa voz cujo tom indiciava a ausência de qualquer emoção:

“Preciso de dinheiro para a viagem de volta, pois eles apenas me pagaram o bilhete de vinda, sua impigem impotente que sofre de incontinência intestinal.”

Joselito, num gesto casual, levou as mãos aos hipotéticos bolsos:

“Como podes ver, estou despido.”

“Sim eu também. Lá terei de ir assaltar um banco. E agora tenho de ir que já é tarde. Gostei de te conhecer, Joselito.”

Disse, afastando-se. E, batendo as asas, voou, dizendo adeus.

“ Eu também, Anjo Miguel Cheiro Mal Da Boca. Mas espero nunca mais te ver.”

Respondeu Joselito, dizendo adeus e vendo-o sumir-se no ar, até ser um minúsculo pontinho no céu azul.

Joselito, respirou de alivio.

Mas percebia agora a causa de toda aquela sensação angustiante que o vinha mantendo preocupado: todos os cristãos do mundo inteiro tinham os olhos postos em si.

Rejeitava bem, toda essa responsabilidade em troca de uma queca.

Passaram quarenta dias e quarenta noites e sem haver plena concordância entre os participantes no debate, esgotaram-se as bebidas alcoólicas.

Deus Nosso Senhor, completamente sequioso, começou a sentir uma necessidade quase fisiológica de álcool, bebendo inclusive o perfume Carolina Herrera, que sua esposa guardava com todo o carinho para estrear no dia de aniversário do seu casamento, após tão gravoso acto, passou três dias internado numa clinica particular a fazer um transplante do fígado.

Mas por essa altura as faltas de memória eram cada vez mais constantes e quando lhe deram a escolher entre o fígado de um fenecido jogador de basquete e o de um abstémio esquimó, escolheu o terceiro: o fígado de um alce coxo. Que sofria de parlamitose e que se engasgava a comer.

Sentindo a morte cada vez mais perto, Deus, o Supremo, o Rei Das Eternas Caçadas, Dono Dos Prados Mais Verdejantes a Oeste Do Saarah, começou a sentir duvidas existenciais e uma cada vez mais consistente comichão na testa.

Este episódio veio atrasar ainda mais o processo.

Pois a Virgem Maria continuava indecisa. E eram tão válidas as suas razões que mingúem a conseguia demover e assim levá-la a tomar uma decisão.

Nem mesmo Maria Madalena. Nem Ruth. Nem Raquel.

Tendo nas suas mãos o destino de alguém , Ela não iria arriscar o futuro de uma pessoa completamente desconhecida para si.

Teve então de tomar a decisão mais arriscada de toda a sua carreira de mediadoras de seguros: descer ao planeta Terra.

E ninguém a conseguia convencer dos perigos que tal decisão acarretava.

Nem mesmo Maria Madalena. Nem Ruth. Nem Raquel.

Que levasse pelo menos um segurança, diziam, completamente assustados. Mas Ela respondia com toda a sua candura: “Não preciso de paus de cabeleira! Regressarei quando o galo cantar três vezes:”.

E assim foi.

Mas esqueceu-se da carteira e teve que voltar atrás. Encontrando o seu marido deitado com a secretária Celeste. Foi quando editou o single “Na minha cama com ela”.

Depois de sair da editora tomou então resolutamente a auto-estrada para a terra com o objectivo esplendoroso entre todos: conhecer pessoalmente Joselito.

Entretanto o mexicano quase “entrava em parafuso”, pois não fazia sexo á mais de duas semanas.

De repente vinda do nada apareceu-lhe pela frente a mais linda criatura que os seus olhos tinham admirado e que lhe disse:

“Chamo-me Maria e concebi sem pecado. Se encontrares alguém que também o tenha feito concedo-te três desejos.”

“Está bem. Quero ser mais alto, mais forte e ir o mais longe que puder.”

Mas Joselito estava completamente apaixonado.

E Nossa Senhora começava a sentir uma emoção muito forte dentro do peito.

E a comichão na testa de Deus , O Supremo, começava a tornar-se cada vez mais intolerável.

E decidiu agir. Tinha que tomar uma decisão. Mas Ele, Deus, O Supremo, não se atrevia, nem era capaz, de tomar qualquer decisão, sem se sentir toldado pelo álcool.

O que nesse momento era uma situação bastante difícil: não havia álcool no Reino Dos Céus.

Entretanto Josélito sentindo uma atracção muito forte por Maria tentava convençê-la a entrar numa residencial que se encontrava ali perto. Só que Maria , uma senhora, honesta e decente, resistia a ser infiel ao seu marido. Mas o mexicano era irresistível e ela começava a ceder aos seus encantos.

Foi quando os céus se abriram e Josélito sentiu um bafo horrível a álcool retardado e uma carantonha enorme, com grandes barbas brancas, e olhos chispando encostada á sua, e uma voz poderosíssima rugiu:

“O que pensas que estás a fazer, meu ordinário? A tentar convencer uma ingénua e dedicada esposa e mãe a trair o seu marido e a levá-la a cometer indecências num quarto de uma residencial rasca? Quem é que tu pensas que és? Por este acto que estavas tentando cometer, condeno-te a viver eternamente. E a partir de hoje serás completamente impotente. E muita sorte tens tu, em que eu não te transforme num javali homossexual!”

E dizendo isto, pegou na mão da esposa e delicadamente sumiram-se os dois por entre trovões, raios e coriscos.

E Joselito, mexicano de raiz, e sexualmente activo, transformou-se assim num híbrido ser humano.

A que viriam a dar o nome de Michael Jackson.

*ver manuscrito desaparecido

FIM

O senhor e a senhora Jones

O SENHOR E A SENHORA JONES, a infância de Joselito

(IV que é na realidade o primeiro)

Caminhava á beira do rio, dando pontapés em todos os seixos(?) que por ali encontrava.

Pensava na melhor maneira de cozer o atum (?) que pescara dez metros abaixo do ponto onde se encontrava nesse preciso momento. É sabido, que voltar sempre ao local onde se pescou, consegue-se cozinhar o peixe mais fresco.

O senhor Jones sabia trinta e duas maneiras de cozinhar um atum do rio(?), a juntar ás trinta e sete da senhora Jones perfazia exactamente sessenta e nove, o que dava um número bastante curioso.

O casal, ficava sempre na expectativa de conseguir comer o mais possível de atum.

A senhora Jones era frigida, mas o marido não tinha nada contra, pois todas as noites, esse defeito da esposa permitia-lhe passar uma noite descansado , e Ter sonhos eróticos com o atum do rio(?).

Todas as pessoas que lidavam de perto com tão estranho casal, para além de terem as feições ovais e os olhos negros, tinham ainda o seu cabelo bastante pastoso, e nessa terriola consumia-se muita graxa para sapatos.

Pensando em todos estes factos, que lhe atrapalhavam em demasia o seu oficio, o pequeno xerife da pequena terriola, que também gostava de dar pequenos passeios junto ao rio, e dar pequenos pontapés nos seixos (?) que por ali encontrava, nesse dia resolveu, quando acordou ainda manhã cedo, tirar um pouco do seu tempo para pensar, e dessa vez seria a sério, para pensar nela.

Fazia-lhe bastante impressão a maneira como a senhora Jones atava o cabelo por cima da nuca (?). E aquele seria o dia em que ele teria obrigatoriamente de cheirá-lo. O xerife tinha por obrigação cheirar o cabelo de todas as mulheres frigidas da terriola, pelo menos duas vezes por semana.

E ele nem tão pouco se importava que as pessoas comessem atum em demasia, mas não aceitava que depois desse acto, não lavassem as mãos e as passassem, continuamente pelo cabelo. Começava a sentir-se até bastante incomodado, porque todas as pequenas crianças, filhas das mulheres frigidas, que consumiam atum do rio(?) começavam também a Ter esse hábito, e ele pensava que não lhes assistia tal direito.

O xerife tinha pretensões a ascender a outros cargos e não seria um mero atum do rio(?) que o iria impedir.

Quando começou a calcorrear os poucos metros de terra batida que separavam o seu gabinete da casa dos Jones, sentiu uma ligeira indisposição intestinal, e teve que voltar atrás. Quando entrou na casa de banho deu-lhe tamanha fome que ficou indeciso entre ir á cozinha e ficar na casa de banho.

Eram costume estas duvidas, e estas súbitas indisposições sempre que tinha de ir cheirar um cabelo de uma mulher frigida.

O xerife era virgem.

Mas não era esse o seu principal defeito. A sua maneira de andar, com a biqueira das botas voltadas para o sitio onde deviam estar os calcanhares, era bastante comentada entre os habitantes da terriola, que de cada vez que passavam por ele, na rua, começavam a andar ao contrário dando constantes piruetas sobre si próprios. Certa vez, até o preto Handsome, que costumava trabalhar na pequena quinta dos Jones, tentara fazer o mesmo e, por esse facto, caíra ao rio e fora comido por um atum(?).

O que trouxe bastantes embaraços aos Jones, que tiveram de arranjar outro engraxador de sapatos, e ao cangalheiro Hitbox, que não estava habituado a não Ter um corpo para enterrar.

Entretanto, a senhora Jones esperava pacientemente pelo xerife. Já estava acostumada a estas demoras sempre que era o dia dos cheiros. Não se importava absolutamente nada com estes hábitos maníacos do xerife, a única coisa que a incomodava era a saliva que o homenzinho costumava deixar no cimo da sua cabeça sempre que inspirava.

A senhora Jones era formada em farmacologia e, sendo de boas maneiras, custara um pouco a acomodar-se a este pequeno defeito do xerife, pois obrigava-a a Ter de aspirar o cabelo constantemente.

Enquanto esperava, perseverantemente, ia lendo uma revista cor-de-rosa, sentada numa cadeira de baloiço no alpendre, e ao mesmo tempo tomava atenção aos dois filhos pequenos, que brincavam no pátio.

Clarabela, a mais velha, que nascera mais ao norte, quando moravam perto do sítio onde o rio era fértil em cação(?), e Joselito, nascido numa excursão de autocarro ao México, eram dois petizes algo mexidos, e as brincadeira do filho mais novo começavam a ser um tanto preocupantes em relação á irmã mais velha.

A sua brincadeira preferida era pôr uma garrafa de Coca-Cola a rodar em cima de uma mesa, e quando parasse, a pessoa para onde o gargalo estivesse a apontar teria de despir uma peça de roupa.

Nem ela se atrevera nessas brincadeiras com o senhor Jones.

Mas o mais grave era que o gargalo ficava a apontar constantemente para a irmã.

E para a senhora Jones tais brincadeiras assumiam proporções escandalosas, na medida em que o sexo de Joselito estava a crescer demasiado em relação ao seu corpo.

Estava até a pensar em não fazer braguilha nos calções do filho, pois pensava que a pressão impediria o sexo de crescer.

Olhando para a estrada avistou os calcanhares do xerife dirigindo-se na direcção da casa.

Poisou o livro, que não lhe interessava minimamente, pois a senhora Jones preferia ler revistas financeiras, e começou a preparar-se, mentalmente, para a sessão de cheiros que se iria seguir.

Era costume a sessão não demorar muito tempo, mas ela lembrava-se da ultima, e não conseguia conter os suspiros.

Quando o xerife se encontrava perto da casa viu as duas crianças a brincar. Nesse momento, Clarabela só já tinha as cuequinhas e a garrafa continuava a rodar, enquanto o pequeno, de que o xerife tinha dificuldade em lembrar-se do nome, urrava e agitava os braços de alegria.

Pensou que eram bastante estranhas aquelas brincadeiras e bastante estranhos aqueles miúdos. Mas como não lhe diziam respeito, e ele já tinha demasiados problemas para resolver, achou melhor não se intrometer.

Para além dos cheiros de atum que teria de fazer ainda nessa manhã, o xerife encontrava-se bastante preocupado com o desaparecimento das ferraduras da casa do ferreiro Espetodepau.

Encostou-se ao alpendre a descansar, olhando com os seus olhinhos de marrã morta para a senhora Jones, quando sentiu os joelhos molhados. Joselito, em ar de provocação, do meio da rua, urinara-lhe para cima.

O xerife puxou do revólver que trazia á cintura e começou a dirigir-se na direcção da criança. Não admitia tal ultraje, vindo do filho de pessoas que sabiam sessenta e nove maneiras de cozinhar um atum do rio(?). Mas, quando se preparava para puxar do gatilho, sentiu o estrondo e um impacto no peito. Começava a escorrer do coração um fiozito de sangue: “Será a isto que se chama perder a virgindade?”, pensou, antes de tombar morto.

Joselito soprava o fumo que saía do cano do revólver que acabara de disparar. Fora mais rápido, como sempre.

A mãe foi a primeira a aperceber-se do sarilho em que o seu mais que tudo se metera. Mas Josélito só teve essa noção quando a sua mãe gritou e começou a correr na sua direcção, com a colher de pau nas mãos.

Ele, Joselito, não iria admitir que, na ausência do pai, qualquer pessoa, mesmo o xerife, por quem não tinha grande apreço, nem sequer se lembrava do nome do sujeito, não seria a ele que Joselito admitiria cheiros no cabelo de sua mãe.

Entretanto a senhora Jones, poisando a colher de pau, começou a pensar na melhor maneira de livrar o rebento de tal sarilho, e a primeira coisa a fazer seria ver-se livre do corpo.

Talvez se o deitasse ao rio, os atuns(?) o comessem.

Mas os atuns do rio(?) não gostavam muito de xerife, e se não o comessem, haveria sempre o perigo da decomposição do corpo, e a poluição das águas poderia alterar o sabor dos atuns. E se isso viesse a acontecer, para alem da catástrofe ambiental, poderia provocar desarranjos intestinais nos habitantes da pequena aldeola.

Então lembrou-se do seu marido.

O senhor Jones gostava de carne de xerife, e se o atassem na chaminé, conservando o corpo no fumeiro, poderia todos os dias dar-lhe um naco de carne ás refeições. E assim, para alem de poupar algum dinheiro no talho, manteria satisfeito o marido que começava a fartar-se de atum do rio(?) todos os dias.

Tinha um problema resolvido. Mas continuava com o mais complicado por resolver. Joselito não poderia andar a matar, constantemente, xerifes que viessem , na ausência do marido, cheirar o cabelo da mãe.

De repente, outro problema de difícil resolução lhe veio á ideia: a matemática. Que fazer dos professores de matemática? E que fazer dos professores de matemática que não gostavam de atum do rio(?)?

Foi nesse instante que Joselito notou a preocupação que varria o rosto de sua mãe. E disparou novamente o revólver na sua direcção.

A senhora Jones sentiu o estrondo do revólver e um impacto no peito. Começava a escorrer um fiozito de sangue do coração. “Será a isto que se chama deixar de ser frigida?”, pensou, antes de tombar morta.

Josélito soprou o fumo que saía do cano de revólver e então teve a noção do acto que praticara: era um pleno matricida.

Mas ele, Joselito, não admitiria que na ausência do pai, a sua mãe se preocupasse com o desaparecimento do corpo de um xerife de terriola que não gostava de atum do rio(?) e, muito menos com professores de matemática, que também não gostavam de atum do rio(?).

Mas não poderia andar constantemente a matar pessoas.

Foi quando reparou na sua irmã, Clarabela, que se encontrava olhando para ele, com uma expressão nos olhos, pedindo que viesse terminar o jogo que estavam fazendo na altura da chegada do xerife.

“Esta não é uma pessoa.”, pensou Joselito antes de apertar o gatilho e disparar o revólver na sua direcção.

Clarabela ouviu o estrondo do revolver e sentiu um impacto no peito. Um fiozito de sangue escorria do coração. “Era para isto que ele me queria ver nua?”, pensou, antes de tombar morta.

Josélito não iria admitir que na ausência do pai, a sua irmã, não se preocupasse, minimamente, com o envolvimento da mãe com um xerife de terriola e com professores de matemática que não gostavam de atum do rio(?), e os seus pensamentos fossem unicamente para jogos pueris.

Dirigiu-se então a casa do ferreiro Espetodepau, que se encontrava na altura bastante chateado com o desaparecimento das ferraduras, e que vendo Joselito vindo na sua direcção, se começou a dirigir para ele para, como fazia todos os dias, lhe pegar ao colo e lhe dar dois beijos, pouco inocentes, nas bochechas rosadas.

Foi então que o ferreiro ouviu o estrondo de um revolver e sentiu um impacto no peito. Escorria um fiozito de sangue do coração. “Este miúdo está sempre com estas brincadeiras. Quando é que ele cresce?”, pensou, antes de tombar morto.

Joselito não iria admitir que, na ausência do pai, o ferreiro Espetodepau soubesse do envolvimento da sua mãe com o xerife e com os professores de matemática que não gostavam de atum do rio(?), e que, para alem disso, andasse a comentar os seus jogos pueris com a sua irmã mais velha.

Foi quando reparou na cara de contentamento do cangalheiro Hitbox, que o seguia há bastante tempo.

Hitbox ria-se para Joselito, cada vez que este olhava para trás, e começava a pensar, seriamente, na adopção da criança, quando ouviu o estrondo de um revolver e sentiu um impacto no peito. Escorria um fiozito de sangue do coração. “Onde irei arranjar tanta madeira para fazer caixões?”, pensou antes de tombar morto.

Joselito não iria admitir que um hipócrita cangalheiro que na ausência do pai queria, não só enterrar a sua mãe juntamente com um xerife de terriola e uns professores de matemática que não gostavam de atum do rio(?), como enterrar também o ferreiro Espetodepau na mesma campa de sua irmã, mesmo depois de este Ter andado a comentar os seus jogos pueris.

Mas começava a fartar-se de tanta morte. Joselito não poderia andar constantemente a matar pessoas.

Alguém se dirigia na sua direcção.

O primeiro pensamento da criança foi correr para ele e lançar-se no seu colo, quando, estando mais perto, conseguiu destinguir a figura do pai amado. Este que passeava nas margens do rio dando pontapés em todos os seixos (?) que por lá encontrava, e que ouvira as tiros, apressara a encaminhar-se para casa. Quando avistou o filho, deu um grande suspiro de alivio, e descansou.

Foi quando ouviu o estrondo de um revólver e sentiu o impacto no peito. Escorria um fiozito de sangue do coração: “Andei toda a manhã com uma ligeira impressão nos cantos da testa!”, pensou antes de tombar morto.

Joselito soprava o fumo que saía do cano do revólver

Ele nunca iria admitir que o pai não se importasse com o envolvimento da mãe com o xerife da terriola e com os professores de matemática que não gostam de atum do rio(?). e que nunca tivesse proibido os jogos que ele e a irmã praticavam, puerilmente. Até os incentivava, aliás. E também nunca quisesse saber que o ferreiro Espetodepau lhe pegasse ao colo e lhe desse beijos, pouco inocentes, e de um cangalheiro Hitbox que queria enterrar toda a gente, mas que não tinha madeira suficiente para fazer os caixões e andava a pensar construi-los com fibra de carbono, inflacionando assim o seu preço.

Mas agora tudo estava terminado.

Joselito já poderia seguir a sua infância com normalidade e sem qualquer preocupação que viesse a impedir o seu natural desenvolvimento pessoal.

Foi quando avistou do outro lado da rua uma porta com uma luz vermelha por cima. E um letreiro que dizia em luzes néon: “LEITO DO MELAÇO”. Entrou.

Cinquenta e quatro raparigas, de todas as raças e credos, umas feias outras bonitas, encontravam-se sentadas numa sala pouco espaçosa. Como que esperando por ele.

Fez amor com todas elas durante três dias e três noites. E depois gargarejou com água da torneira, ao fim do terceiro dia como mandam as escrituras.

Saiu, no seu andar calmo, fechando a porta atrás das costas, deixando uma casa com cinquenta e cinco pessoas completamente exaustas, mas satisfeitas.

E sumiu-se no fio do horizonte.

Assim nasceu a lenda.