“Ou se faz sexo ou se pensa…” Divagava Maria Papoila, com as pernas enroscadas nas de Joselito. Do outro lado da cama, Rosa Selvagem ressonava, extasiada, depois da turbulenta noite de amor proporcionada às duas, pelo bem fornecido mexicano. Este ressonava ainda mais alto.
Impedida de se concentrar, nas suas divagações, pelo barulho sonoro feito pelo casal, levantou-se e foi até á janela, que abriu de par em par, deixando entrar o sol matinal e sendo, dessa forma, atingida pelos odores putrefactos da imensa e desorganizada metrópole que é Banguecoque*.
“Fazer sexo é inteligente. Quando se faz sexo não se pensa, ou então o acto não presta. Sendo assim, pensar não é inteligente, mas comer tremoços… bem, os tremoços vão melhor com as cervejas do que a praticar sexo! Sinto-me um pouco baralhada…”. Chegando a essa conclusão, Maria Papoila debruçou-se na janela, para observar a confusão animada das ruas, e sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Este gajo não descansa!”.
Maria Papoila fazia sexo dez vezes por dia, desde os seis anos de idade. Esta sua precocidade era bastante admirada, e invejada, pelas pessoas da pequena vilazita da Galiza, onde cresceu e viveu até aos catorze, altura em que a sua família teve de se mudar para a grande cidade, em busca de melhores condições.
Sua mãe compunha boleros, e seu pai trabalhava numa fábrica de confecção de esfregões para lavar restaurantes que apenas abriam ao fim de semana. Como o negócio da restauração não era dos mais desenvolvidos, José Papoila tinha sido despedido, vendo-se na contingência de ir trabalhar com os filhos, irmãos mais velhos de Maria Papoila, pescadores de ostras. Mas, por qualquer obscura razão da natureza, estas encontravam-se em abstinência sexual e não se reproduziam, sendo toda a família dos Papoilas obrigada a partir para a América Latina, deixando o coração destroçado á imensa maioria masculina da pequena vilazita galega.
Vendo qualquer coisa que lhe chamou a atenção, Maria debruçou-se, ainda mais, na janela e sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Este gajo não descansa mesmo!”.
Do outro lado da rua, no prédio em frente ao seu, um pombo-correio, observava Maria Papoila, piscando os seus olhitos amarelos. Abanando a cabeça de um lado para o outro e dando pulinhos, ora numa pata ora noutra, encontrava-se tão absorto que, escorregando do varão da varanda em que se encontrava pousado, estatelou-se com enorme alarido sobre um riquexó, puxado por um pequeno e afogueado autóctone, que passeava duas americanas texanas, sessentonas, matrafonas e bolorentas.
“Seria o Espírito Santo?” - questionou-se Maria. E num grito pleno de esperança, apressou-se a ir ter com o pombo-correio, que entretanto, num imenso chafurdar de penas, tentava evitar as porradas histéricas que as duas americanas lhe tentavam aplicar.
Agachando-se para apanhar as cuequinhas, sentiu o corpo quente de Joselito encostado no seu. Sentindo que ele a penetrava por trás: “Será que este gajo nunca descansa, pá?”.
Entretanto a pequena ave conseguira escapulir-se para debaixo do riquexó, esperando, angustiosamente, que alguém o fosse salvar, ou que as duas bélicas texanas se cansassem de o tentar atingir com as vassouras, que com poderosos movimentos iam ondulando, perigosamente, pelo ar.
Maria Papoila, apercebendo-se de que a vida do pombo-correio poderia estar em risco, ou então de sofrer sérias mazelas físicas, começou a descer as escadas com toda a pressa que podia, mas perdendo um sapato, agachou-se para o apanhar e sentiu o corpo quente de Joselito encostar-se no seu. E sentiu que ele a penetrava por trás: “ Dasse… é que este gajo não descansa nunca!”.
Na rua, perante um ajuntamento cada vez maior de moradores atraídos pelos gritos do condutor, e o piar aflito do pombo, as duas americanas aplicavam pauladas cada vez mais fortes no riquexó, já semi-destruido. Mas ninguém pensando em acudir á pobre ave, que, com sérias duvidas em relação á bondade humana, começava justamente a rever a vida em flashback. A sua única hipótese, Maria Papoila, nunca iria chegar a tempo, pois quando se inclinara para desviar o tapete em frente da porta sentira o corpo quente de joselito encostado no seu. E sentiu que ele a penetrava por trás. “Nunca, mas nunca mais, ponho os pés nesta casa, eu não me chame Maria Papoila!”
Então, estando a vida da ave por um fio, o pobre columbídeo sem qualquer hipótese e um enorme aglomerado de asiáticos de mãos no ar, as senhoras dando gritinhos de aflição, os pais tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o sacrifício eminente, eis que as duas americanas texanas, sessentonas, matrafonas e bolorentas agacham-se, num último esforço, para conseguir atingir o pombo-correio e, uma, depois a outra, sentiram o corpo quente de Joselito encostado no seu. E, uma, depois a outra sentiram que ele as penetrava por trás.
“God, como é bom viver em Banguecoque!”.
* notar a semelhança fonética.
2 comentários:
viva o gangbang, é sempre a enfiar-lhe
VERDADEIRAMENTE HERÓICO...
http://diariodeumportugues.blogspot.com/
visita-me de vez em quando, pá...
tou contigo no príncipio de agosto...
ÓPTIMOS TEXTOS
tou muito orgulhoso...
já agora http://forademora.blogspot.com/
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