Este é o produto de uma conversa, num belo dia de Verão, á sombra de uma tamareira, em pleno deserto do Saara.
É uma reflexão conjunta entre Joselito mexicano de raiz e a Marqueza de Vintamiglia, descendente das mais nobres famílias italianas, uma figura poderosa: alta e farta de carnes, com mais pilosidade facial que o Capitão Haddock e com um par de seios monumentais, imagens pictográficas dos Himalaias. Devoradora feroz de panquecas, este seu hábito só tinha marco de comparação com a fome avassaladora de Joselito por sexo.
Eis a transcrição de um momento histórico, onde se falou de tudo: plantio de beterraba, formas para cozinhar alfarroba, técnicas ajustadas de pentear ananases, cuspir caroços, e o poder eólico das flatulências. E cultura, até se falou de cultura! Estava realmente um calor do caraças!
Marqueza de Vintamiglia – Amigo, gostas de panquecas?
Joselito – Eu é mais gajas. Mas a semelhança entre uma panqueca e um traseiro feminino não me incomoda absolutamente nada. Para alem da analogia fonética…
M.V. – Também já fui para a cama com mulheres. O lesbianismo também não me incomoda absolutamente nada…
J. – Mas a mim incomoda, ora essa!
M.V. - … nos meus tempos de juventude – o Joselito estará recordado -, quando dava aquelas festas monumentais, que não bastas vezes acabavam em colossais orgias e em avassaladores fogos de artifício, acordei na cama com cinco jovens italianas, duas eslovacas e quatro capitães da guarda cossaca. Mas do que eu gosto mesmo é de talos de couve!
J. – Eu não gosto de couve. Couve roxa ainda suporto, faz-me recordar a intimidade feminina, o desabrochar…
M.V. - … não percebo a analogia, é um pouco ordinário, não?
J. – Não, não, não, de todo! Entenda o meu raciocínio: antes de ser roxa, a couve começa por ganhar umas cores rosadas, que ao longo das semanas de desenvolvimento, vai ganhando essa cor mais escura com que acaba por ir para a mesa. Com as mulheres é exactamente a mesma coisa.
M.V. - Continuo sem perceber. Acho um pouco misógino e sexista.
J. – Pelo contrário, bastante realista, e cientifico. Mas a Marqueza estava falando de talos de couve…
M.V.- Sim, gosto de talos de couve. Há-os de todos os feitios e tamanhos. E também a semelhança entre um talo de couve e um homem é espantosa: ambos têm pouca utilidade…
J. - … o homem mexe-se!
M.V. – Tambem um talo de couve quando lhe dá o vento.
J. – Já comeu panquecas com sabor a talo de couve?
M.V. – Claro. Já comi panquecas feitas de tudo o que é possível. Até de chinês careca! Mas prefiro as de alforreca de Madagáscar.
J. Eu gosto muito de asiáticas, e de europeias. As africanas são muito boas e as sul-americanas são especiais, assim como as…
M.V. - … estás a falar de panquecas?
J. – Acha Marqueza?
M.V. – Então vamos mudar de assunto.
J.- Boa, vamos falar de sexo!
M.V. – Eu como mulher preferia falar de amor.
J. – E não é a mesma coisa?
M.V. – Há diferenças entre uma coisa e outra.
J. – É possível, mas eu ainda não descobri quais.
M.V. – O amor faz-me lembrar uma panqueca italiana. A sensualidade latente nas panquecas italianas só é comparável ao nascimento de um filho.
J. – Também devo ter um filho em Itália! Não tenho bem a certeza, mas na Grécia e na Malásia é mais que certo!
M.V. – Bem, e se falássemos de arte? O Joselito quer ouvir o meu poema sobre panquecas?
J. – Claro, é um imenso prazer, Marquesa!
M.V. – Aqui vai:
Acordei moída e esfomeada,
E até com uma enxaqueca:
Quando dei por mim estava estarifada
Na cozinha a comer uma panqueca!
J. – Bravo Marqueza! Lindíssima! A Senhora sempre foi uma poetisa extraordinária! Os seus saraus culturais estão na história, marcados para sempre na memória de todos os que neles tiveram o privilégio de participar.
M.V. – Quer ouvir outra?
J. – Já que insiste.
M.V. - O meu amor estava com frio
E eu não sabia das cuecas,
Sentei-me num banco e sem dar um pio
Fartei-me de comer panquecas!
J.- … mais não por favor, excelentíssima Marqueza, até estou com lágrimas nos olhos de tão comovido…
M.V. – Estava no mar alto a nadar,
Quando vi uma alforreca,
Deu-me uma fome e sem parar
Comi-a como se fosse uma panqueca.
J. – Tenho que me ir embora, Marqueza, já estou a ficar atrasado…
M.V. - … Sei que não sou bonita
Mas também não sou nenhuma marreca,
Agora o que eu gostava mais na vida
Era de ser mesmo uma panqueca.
J. – Até amanhã Marqueza! Tchau!
M.V. – Ainda tenho mais umas quantas Joselito! Oh, e não é que está mesmo cheio de pressa? Até vai a correr!
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