quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O SEXO E AS PANQUECAS

Este é o produto de uma conversa, num belo dia de Verão, á sombra de uma tamareira, em pleno deserto do Saara.

É uma reflexão conjunta entre Joselito mexicano de raiz e a Marqueza de Vintamiglia, descendente das mais nobres famílias italianas, uma figura poderosa: alta e farta de carnes, com mais pilosidade facial que o Capitão Haddock e com um par de seios monumentais, imagens pictográficas dos Himalaias. Devoradora feroz de panquecas, este seu hábito só tinha marco de comparação com a fome avassaladora de Joselito por sexo.

Eis a transcrição de um momento histórico, onde se falou de tudo: plantio de beterraba, formas para cozinhar alfarroba, técnicas ajustadas de pentear ananases, cuspir caroços, e o poder eólico das flatulências. E cultura, até se falou de cultura! Estava realmente um calor do caraças!

Marqueza de Vintamiglia – Amigo, gostas de panquecas?

Joselito – Eu é mais gajas. Mas a semelhança entre uma panqueca e um traseiro feminino não me incomoda absolutamente nada. Para alem da analogia fonética…

M.V. – Também já fui para a cama com mulheres. O lesbianismo também não me incomoda absolutamente nada…

J. – Mas a mim incomoda, ora essa!

M.V. - … nos meus tempos de juventude – o Joselito estará recordado -, quando dava aquelas festas monumentais, que não bastas vezes acabavam em colossais orgias e em avassaladores fogos de artifício, acordei na cama com cinco jovens italianas, duas eslovacas e quatro capitães da guarda cossaca. Mas do que eu gosto mesmo é de talos de couve!

J. – Eu não gosto de couve. Couve roxa ainda suporto, faz-me recordar a intimidade feminina, o desabrochar…

M.V. - … não percebo a analogia, é um pouco ordinário, não?

J. – Não, não, não, de todo! Entenda o meu raciocínio: antes de ser roxa, a couve começa por ganhar umas cores rosadas, que ao longo das semanas de desenvolvimento, vai ganhando essa cor mais escura com que acaba por ir para a mesa. Com as mulheres é exactamente a mesma coisa.

M.V. - Continuo sem perceber. Acho um pouco misógino e sexista.

J. – Pelo contrário, bastante realista, e cientifico. Mas a Marqueza estava falando de talos de couve…

M.V.- Sim, gosto de talos de couve. Há-os de todos os feitios e tamanhos. E também a semelhança entre um talo de couve e um homem é espantosa: ambos têm pouca utilidade…

J. - … o homem mexe-se!

M.V. – Tambem um talo de couve quando lhe dá o vento.

J. – Já comeu panquecas com sabor a talo de couve?

M.V. – Claro. Já comi panquecas feitas de tudo o que é possível. Até de chinês careca! Mas prefiro as de alforreca de Madagáscar.

J. Eu gosto muito de asiáticas, e de europeias. As africanas são muito boas e as sul-americanas são especiais, assim como as…

M.V. - … estás a falar de panquecas?

J. – Acha Marqueza?

M.V. – Então vamos mudar de assunto.

J.- Boa, vamos falar de sexo!

M.V. – Eu como mulher preferia falar de amor.

J. – E não é a mesma coisa?

M.V. – Há diferenças entre uma coisa e outra.

J. – É possível, mas eu ainda não descobri quais.

M.V. – O amor faz-me lembrar uma panqueca italiana. A sensualidade latente nas panquecas italianas só é comparável ao nascimento de um filho.

J. – Também devo ter um filho em Itália! Não tenho bem a certeza, mas na Grécia e na Malásia é mais que certo!

M.V. – Bem, e se falássemos de arte? O Joselito quer ouvir o meu poema sobre panquecas?

J. – Claro, é um imenso prazer, Marquesa!

M.V. – Aqui vai:

Acordei moída e esfomeada,

E até com uma enxaqueca:

Quando dei por mim estava estarifada

Na cozinha a comer uma panqueca!

J. – Bravo Marqueza! Lindíssima! A Senhora sempre foi uma poetisa extraordinária! Os seus saraus culturais estão na história, marcados para sempre na memória de todos os que neles tiveram o privilégio de participar.

M.V. – Quer ouvir outra?

J. – Já que insiste.

M.V. - O meu amor estava com frio

E eu não sabia das cuecas,

Sentei-me num banco e sem dar um pio

Fartei-me de comer panquecas!

J.- … mais não por favor, excelentíssima Marqueza, até estou com lágrimas nos olhos de tão comovido…

M.V. – Estava no mar alto a nadar,

Quando vi uma alforreca,

Deu-me uma fome e sem parar

Comi-a como se fosse uma panqueca.

J. – Tenho que me ir embora, Marqueza, já estou a ficar atrasado…

M.V. - … Sei que não sou bonita

Mas também não sou nenhuma marreca,

Agora o que eu gostava mais na vida

Era de ser mesmo uma panqueca.

J. – Até amanhã Marqueza! Tchau!

M.V. – Ainda tenho mais umas quantas Joselito! Oh, e não é que está mesmo cheio de pressa? Até vai a correr!

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