JOSELITO, O SUPREMO PROSTITUTO
(II que é realmente o terceiro)
CORPO – LU em tibetano. Significa algo que deixamos para trás, como uma bagagem.
Joselito, mexicano de raiz, acordou daquele sono pesado e estúpido, e tossiu três vezes. Depois gargarejou com água da torneira e sentou-se no cadeirão de verga.
Pensou na vida fútil, desorganizada e inorgânica que levava, e dirigiu-se ao W.C., onde teve de esperar que dez lamas do Tibete e outros dez do Peru, fizessem as terrenas necessidades.
Por volta da meia noite, toalete feita, calçou as botas mexicanas, as calças negras, justas, uma camisa também negra com uma risca horizontal branca, e saiu, decidido, para as ruas tumultuosas de Paris.
Tomou o autocarro para Montparnasse e brigou com uma criancinha, que não estava disposta a facilitar-lhe o lugar, mas estava na disposição de o obrigar a fazer todo o caminho de pé.
Quando desceu do autocarro, em grande rapidez e com a prestimosa colaboração do condutor e de quatro metediços trabalhadores das obras, devido a Ter dado uma “belinha” no irrequieto miúdo, que por pouco não lhe estragava a noite, e após percorrer três quarteirões a pé, chegou a Saint Germain Du Prés.
Comprou três poemas a um jovem de barba castanha e olhos amendoados, que por ali passava, e vendeu dois, dez metros á frente, a um casal de turistas japoneses sem barbas e olhos em bico, que por ali passavam. E fotografavam.
Sentou-se numa esplanada, e recostou-se na cadeira. Pediu um Mojito, a um barman efemeninado, bebeu. Pediu outro Mojito, a outro barman efemeninado, bebeu. Esperou.
Não teve de esperar muito. Uma moça, realmente linda se o seu apêndice nasal não envergonhasse o actor Depardieu, com longas tranças negras caindo por sobre os ombros bem torneados, sentou-se na sua mesa, encostou a perna á dele e pediu-lhe lume. Joselito mostrou-lhe o isqueiro, com uma forma integralmente fálica, obscena mesmo, acendeu-lhe o cigarro e segredou-lhe ao ouvido.
Saíram os dois de mãos dadas e desceram a rua só parando numa residencial, rasca. A porteira – por vezes também parteira – deu-lhes a chave e um preservativo, que Joselito recusou. Subiram as escadas, abriram a porta, deitaram-se e beberam Gin-Tonico durante três dias e três noites.
Depois saíram do quarto, sem fechar a porta, desceram as escadas e saíram da residencial, sem cumprimentar a porteira – por vezes também parteira.
Quando se encontravam na rua, Joselito olhou incrédulo para a sua companheira e disse : “Nós somos um inconho! Temos de nos separar.”.
Então, cada um seguiu caminhos diametralmente opostos e não consta que os tenham visto juntos mais alguma vez.
Entretanto Joselito caminhava pensativo, coisa rara, muito pouco frequente mesmo, quando avistou um palco vazio, subiu, prosseguiu até ao proscénio, e fez uma prosopopeia provinciana das prussianas prostitutas que se proclamam com dores na próstata. Pegou nos tomates e foi para casa jantar.
Quando chegou a casa dirigiu-se ao espelho mágico e perguntou:
- “Espelho meu, espelho meu, diz-me porque vivo eu em permanente sobressalto.”.
E o espelho respondeu, com a sua voz de barítono rouco:
- “ A tua alma amargurada só te permite pensar em sexo, Joselito. Joselito, tu consegues fazer amor durante horas. Tantas que um gago árabe demora mais tempo a recitar o Alcorão. És sexualmente atraente, e as tuas partes pudendas, fazem uma protuberância que as calças justas, justamente realçam. O que, e isto é inevitável, atrai os olhares entusiasticamente cobiçantes das mulheres, e os olhares cobiçantemente invejosos dos homens. Joselito, tu és ... “O Supremo Prostituto”. E por esse motivo não terás, sequer um minuto de sossego. Eu próprio, se tivesse uma figura e não fosse um simples figurante, também gostaria de ficcionar uma peça de amor contigo.
- “Ouve lá, ó espelho maricas, eu sou filógino!”
Dizendo isto, pegou numa cadeira:
- “Se me partires terás sete anos de azar.”
Joselito pousou, calmamente, a cadeira no chão, pegou no seu órgão de copulação,com as duas mãos, e num poderoso movimento partiu o espelho:
- “E tu não estarás cá para ver, maricon!”
Ficou mais descansado, mas sentiu-se um pouco triste e só.
Depois do desaparecimento do seu cão Asdrúbal,* o estúpido do espelho era o seu único copidesque.
Foi quando se lembrou dela, e telefonou-lhe.
Rosa Selvagem. Era a única miúda coquete que gostava de fazer amor na sua cama de pregos.
Quando ela chegou, beberam Gin-Tonico durante três dias e
três noites. Fizeram amor ao terceiro dia, como mandam as escrituras
e não gargarejaram com água da torneira.
Porque, entretanto, tocaram á campainha. Era um abade que sofria de coprocasia, e que queria perguntar se o deixariam participar em tão ruidosa festa. Joselito que sofria de coprolalia partiu-lhe o nariz, não sem que antes lhe tivesse chamado coprólito.
Quando voltou ao quarto, Rosa Selvagem tinha pegado na malinha cor de rosa e tinha-se sumido. Joselito pegou-lhe nas roupas que se encontravam espalhadas pelo chão e dirigiu-se á cozinha, deitando-as para o caixote do lixo. Mas, estranhamente, a imagem do abade – s.m. Superior de uma abadia. Titulo dado ao superior de uma ordem religiosa. – teimava em não lhe sair do espirito – s.m. Principio imaterial, alma. -. Aborrecido voltou ao quarto e deu um pontapé na cama de pregos.
Olhando para o membro inferior, mais inferior, pensou que talvez fosse melhor chamar uma ambulância, sendo que a cama teimava em não se despregar do pé.
Mas encontrava-se tão aborrecido que abriu a porta e saiu para as escadas, pensando que a mulher da limpeza se encontrasse ainda por ali, e quisesse acabar o serviço que a miúda coquete não esperara para acabar.
Mas parecia que não estava nos dias de sorte, pois levou com o balde da água, com o esfregão, o sabonete e com o detergente, tudo ao mesmo tempo. E nem o “Eu pago! Eu pago!” demoveu a mulher.
E a imagem do abade – s.m. Superior de uma abadia. Titulo dado ao superior de uma ordem religiosa – teimava em não lhe sair do espirito – s.m. principio imaterial, alma. -.
Pensando que algo de podre se passava no Reino da Dinamarca, e enquanto esperava pela ambulância, resolveu ir ao teatro. “Sempre são mais liberais estas actrizes!” pensou, com natural dificuldade, pois isso era um processo que Joselito ainda não dominava totalmente. Na escola os professores tinham até o hábito de o chamar de estúpido remanescente, pois era sempre o ultimo a sair da sala.
Mas não conseguindo calçar o sapato, com a cama pregada ao pé, desistiu da ideia e pensou que talvez fosse menos incomodativo esperar que os paramédicos terminassem o almoço.
Sentou-se no divã, com o pé e a cama apoiados no psiché, e, sentindo-se um pouco cansado, adormeceu.
E teve o sonho mais estranho, de entre todos os que conseguia recordar.
Sonhou que se encontrava com Hitler, e com o abade – s.m. Superior de uma abadia. Titulo dado ao superior de uma ordem religiosa. – dentro de um pub londrino chamado Espirito – s.m. Principio imaterial, alma. -, e ele, Joselito, tinha uma navalha de barbear nas mãos, e estava a fazer o bigode ao Fuhrer, perante os olhares extasiados De Estaline, De Churchill e De Gaulle. Rodeados de mulheres lindas vestidas de biquini e que traziam um letreiro nas mãos a dizer, “Irmãs do Abade”.
Nesse instante, Hermann Goering, disfarçado de limão podre entrou a bater na calvície de Pinto Balsemão e gritava cada vez com mais força : “Quero escrever um livro que se chame Aeronáutica e Suinicultura! Quero escrever um livro que se chame Aeronáutica E Suinicultura!”
Mas ele, Joselito, sabia que Goering apenas conseguia escrever um que se chamasse “Aprenda a jogar berlinde em apenas dez lições, e sem Ter que deixar de comer qualquer alimento.”
Nesse instante começaram todos a bater no balcão com os punhos, e faziam tanto barulho gritando ao mesmo tempo “Abra a porta! Abra a porta!”, que Joselito acordou.
Mas o barulho e aquelas vozes irritantes continuavam. Foi então que percebeu que vinham da sua porta da frente.
A coxear, Joselito dirigiu-se para a porta e quando a abriu saltaram-lhe para cima três paramédicos. Que estupidamente olhavam, ora uns para os outros, ora para a cama de pregos que continuava teimosamente pregada no membro inferior, mais inferior, de Joselito.
-“Nunca viram uma cama Hindu de fazer amor? Um dia terão de experimentar.”
Deitando cuidadosamente Joselito no sofá, os experientes paramédicos, começaram a tentar despregar-lhe a cama do pé quando um exclamou:
-“Ó Rosa Selvagem, o que é que estás a fazer aqui debaixo da cama?”
-“Ah, estavas aí! E eu pensando que tinhas abalado sem levar a roupa!”.
Mas Rosa Selvagem nem teve a decência de dar uma resposta.
1 comentário:
Nao tenho palavras....Joselito é já o meu heroi...Abraço CD
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