quinta-feira, 2 de outubro de 2008

UM ESTUPIDO É UM ESTUPIDO

Um estúpido tem sempre cara de estúpido, quer ele queira quer não. É difícil dizer porquê, mas com o passar dos anos um estúpido acaba sempre por se parecer o mais possível com um estúpido mais estúpido que um estúpido. Seja em Marrocos ou na Austrália, cara de estúpido: premio Nobel ou borra-botas, cara de estúpido. E o mais curioso em toda esta estupidez, é que têm tendência para ser, ou pretendem ser, presidentes de qualquer coisa: é um facto indesmentível e mais que provado que o objectivo maior de um estúpido, é ter poder, mandar em qualquer coisa. Normalmente são os gajos com pila pequena. Quanto mais pequeno e mais falacioso o falo, maior o cargo e consequente poder que detêm. Poderemos deduzir então: homem poderoso, ou com pretensões a sê-lo = pila curta, e fininha.

Ora, mas esse poder, que o cargo logicamente infere, poderia amenizar os estragos que a estupidez patética de um estúpido pretensamente poderoso provoca na vida presente e futura dos outros, mas não, nada de mais errado: ou por paquidérmica prepotência, ou por casualidade defeituosa da natureza, o poder que detêm potencia os danos que a idiotice, a palermice, a parvoeira dos seus actos provoca nos indivíduos que estão sob o seu jugo.

E o mais curioso de tudo, é que são donos de uma perseverança do ser néscio, que ao invés de ser trágico até se torna, deveras, divertido.

Miguel Leopoldo Milciades, presidente da república daquele pequeno país da América latina, até na lua sem capacete lunar, seria sempre um exemplar perfeito do que acabamos de falar: alto e louro, físico de quem resolveu não fazer grandes esforços, carecido de quaisquer pilosidades, olhos castanhos e pequenos, lábios gretados e orelhas em forma de couve-flor, já tinha ar de estúpido, mas quando começou a falar naquela sua voz de serra eléctrica a cortar um nó de pinho, Joselito ficou com todas as dúvidas desfeitas: idiota.

“Pois, sabe, meu caro Joselito, sendo certo que tenho quatro palmos de costas e peso noventa quilos, não posso arcar com todas as responsabilidades! Não tenho culpa de o senhor julgar que a fanfarra oficial da guarda pessoal do Presidente toca demasiado alto e desafinada, opinião contrária á minha. Os metais talvez, mas os tambores são uma delicia… aquele pum-pum-pum…! Que maravilha! Demonstrativo, elucidativo da forma como nós neste pequeno país, possuidor de parcos recursos, oprimido pelas potências vizinhas, imperialistas e colonialistas, tratamos a nossa cultura! Pum-pum-pum! Fantástico! E os pratos…? Traz-traz-traz…! Cultura, é assim que se deve cuidar da cultura: pum-pum-pum, traz-traz-traz!!” – e levantando-se, quase num salto, Milciades começou a marchar, exemplificando de uma forma bastante exagerada, toda a parvoeira barulhenta que a sua fanfarra, um projecto pessoal seu, conseguia, sem aparente esforço dos seus elementos, tocar. “Mentecapto.” – Confirmou Joselito.

De repente, o presidente parou com a sua histriónica e a macacada demonstração de uma fanfarra, apontou o dedo a Joselito e, numa crescente irritação, a serra a patinar no nó de pinho, o organismo deveras próximo de uma síncope, disparou:

- “Inveja! É a inveja e a dor de cotovelo que move essa cambada de ignorantes, contra a minha pessoa! Contra a nossa obra! Grandiosa obra em prol do povo! Tudo pelo povo e para o povo! Viva o povo! Viva o povo!” – gritou, espumando gafanhotos, nuns agudos que se ouviam do outro lado do planeta, e que normalmente atrairiam alguém pensando tratar-se de uma tragédia ou de um atentado presidencial, não fosse os seguranças e demais chefes de gabinete, num descuidado encolher de ombros, estarem habituados às disparatadas gritarias furibundas de tão excelso personagem. E recomeçou a marcha pela enorme sala, que se poderia atravessar de jipe, pulando, braço bem esticado, punho levantado, como se estivesse numa manifestação pós-revolução, dando pontapés, nas cadeiras, mesas e cinzeiros que se cruzavam no seu caminho – as que não se cruzavam, Milciades fazia questão em desviar-se da sua rota e enfiar-lhes tremendos pontapés numa fúria destruidora já com hábitos enraizados. E encostando a cara na de Joselito gritou:

-“ E tu, meu mexicano de merda, não foi para conspirares contra nós que te contratámos!” –

-“Cro-magnon!” pensou Joselito antes de falar calmamente –“Sabe Excelentíssimo Presidente, por mim está tudo bem. O barulho não me incomoda, absolutamente nada. O problema é que a maior parte das senhoras da nossa capital – digo nossa, pois já considero este país como meu –, assim como a sua digníssima esposa, queixam-se de não terem forma de se concentrar, quando se encontram em pleno acto de fazer amor.”

Milciades começou por coçar a testa, baixou o tom de voz, dirigiu-se á secretária e sentou-se.

-“Bem, se é pela minha Lucrécia Lorelei, bem vistas as coisas, podemos fazer umas pequenas alterações na fanfarra, substituir os tambores por uns berimbaus, os metais por uns pífaros, e os pratos… o que fazemos dos pratos, Joselito?”

- “Estalar de dedos?”

-“Seja!” – animou-se Miguel Leopoldo Milciades - que embora tivesse o mesmo nome do general grego vencedor dos persas, era bem menos perspicaz -, imaginando um aglomerado de homens em calções e de meias até aos joelhos, a tocar berimbaus, pífaros e a estalar os dedos.

Joselito despediu-se e saiu, despreocupado – “ Este é que é um verdadeiro inhenho!” – suspirou.

2 comentários:

Anónimo disse...

Fantástico, sim senhor! Quebrar a rotina com humor, muito humor... assim sim!

Anónimo disse...

As bestas não enfiam a carapuça.